A recente demissão de Sébastien Lecornu do cargo de primeiro-ministro de França, aceite por Emmanuel Macron, revela uma crise política profunda no país. Este acontecimento inesperado ocorre num momento crítico, em que França procura uma direcção clara em termos orçamentais e sociais. A instabilidade política que se instalou é a mais significativa desde que Macron iniciou o seu segundo mandato.
Antoine Andreani, director de Research da XTB França, aponta que o presidente francês enfrenta agora um dilema complicado: deve nomear rapidamente um novo primeiro-ministro, dissolver uma Assembleia Nacional já fragmentada ou assumir a responsabilidade pelo impasse político. Esta situação tem repercussões diretas nos mercados financeiros, com os juros da dívida pública a aumentarem e o índice CAC 40, que representa o principal mercado de capitais francês, a registar uma queda de quase 2% na última sessão, com os bancos a liderarem as perdas.
A análise de Andreani destaca que a França está a atravessar um momento delicado, caracterizado por défices orçamentais elevados, instabilidade política e uma crescente desconfiança por parte dos investidores. Em setembro de 2025, a dívida pública francesa atingiu 3,345 biliões de euros, correspondendo a 114% do PIB, o valor mais elevado da zona euro. Os défices orçamentais continuam a ser uma preocupação, com previsões de 5,8% do PIB em 2024 e 5,4% em 2025.
As yields da dívida pública têm vindo a aumentar desde 2024, com a taxa de referência a 10 anos a situar-se agora em 3,60%. Este valor é considerado crítico, uma vez que ultrapassá-lo poderia desencadear uma crise na dívida francesa. O diferencial entre as yields da dívida pública francesa e a alemã atingiu 0,87, o nível mais alto desde 2012, agravado pela descida da notação soberana pela Fitch e pela instabilidade política persistente.
A história recente mostra que todos os governos que tentaram reduzir o défice acabaram por ser derrubados, o que aumenta os receios de que, em 2026-2027, o custo da dívida pública possa ultrapassar o orçamento nacional destinado à educação, que é de 66 mil milhões de euros, comparado com 64 mil milhões de euros. Neste contexto, a credibilidade do Estado e a confiança na democracia estão em jogo. A dívida pública francesa pode transformar uma crise política num verdadeiro desafio sistémico. A França precisa agora demonstrar que é capaz de se manter firme em meio a esta tempestade.
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Fonte: Sapo





