O lançamento dos primeiros avisos do IFIC – Instrumento Financeiro para a Inovação e Competitividade – marca um momento crucial na recuperação económica de Portugal. Este instrumento deveria ser uma oportunidade para redefinir a nossa economia, mas a realidade apresenta-se como um quebra-cabeças que mistura a intervenção pública com a lógica de mercado.
Os teasers que precederam o anúncio dos avisos criaram uma expectativa elevada, mas a sua publicação deixou muitos à espera de orientações. As entidades gestoras, talvez aprendendo com a rápida abertura e fecho do aviso da Indústria 4.0, tentaram evitar a confusão, mas acabaram por deixar o ecossistema em suspenso.
O paradoxo dos instrumentos públicos de financiamento é evidente: anúncios antecipados geram corridas, enquanto anúncios tardios criam incerteza. A falta de clareza nas comunicações leva a uma interpretação complexa, onde a conclusão muitas vezes é que tudo depende de circunstâncias específicas.
Analisando os avisos, o da Reindustrialização destaca-se pelo dilema entre a execução rápida e uma visão estratégica a longo prazo. Com prazos curtos e exigências de previsibilidade, este aviso favorece projetos de baixo risco, o que pode afastar inovações verdadeiramente disruptivas e moldar o perfil da economia portuguesa. Após o Portugal 2030 ter excluído as Grandes Empresas dos apoios, este aviso parece uma tentativa de reintegrá-las na política industrial, embora de forma mais simbólica do que estrutural.
O modelo híbrido de Inovação Produtiva e I&D, por sua vez, lembra as miniagendas, mas introduz uma nova dinâmica: a validação científica agora é responsabilidade das empresas. Esta mudança pode aliviar o sistema público de contratações, mas também traz incertezas e pode favorecer escolhas convenientes em detrimento da independência.
O aviso sobre a IA nas PME apresenta uma contradição. Com investimentos reduzidos e apoios de 75%, é uma boa oportunidade para a transição digital, mas também pode resultar em congestionamento. Ao replicar modelos de baixa complexidade, corre-se o risco de criar mais ruído do que impacto real. As PME necessitam de projetos ambiciosos e apoio técnico, não apenas de reembolsos para subscrições de software.
Por fim, o aviso da Economia da Defesa e Segurança surge como uma versão adaptada do aviso da Reindustrialização, mas com um foco nas tecnologias dual-use. Este aviso expõe claramente a tensão entre o risco estatal e o risco de mercado. As empresas deste setor enfrentam desafios únicos, como ciclos longos de I&D e requisitos de certificação rigorosos. Um instrumento realmente eficaz deveria atuar como um parceiro de capital, focado nas capacidades de soberania.
O IFIC representa um teste à nossa capacidade de equilibrar a urgência da execução com uma visão clara. Este desafio revela a hesitação coletiva em relação ao futuro, onde a construção de uma economia moderna e competitiva ainda está em desenvolvimento. Contudo, existem oportunidades no horizonte. O IFIC pode recompensar aqueles que planeiam com estratégia, criando verdadeiras oportunidades de financiamento para empresas com uma visão clara do seu papel na economia. A arte do financiamento em Portugal está, assim, em constante evolução.
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IFIC Nota: análise relacionada com IFIC.
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Fonte: ECO





