Literacia financeira nas escolas: um desafio em Portugal

Em Portugal, as crianças aprendem a resolver equações e a identificar verbos, mas poucas saem da escola com conhecimentos sobre juro, orçamento ou crédito. A literacia financeira, embora prevista no Referencial de Educação Financeira da Direção-Geral da Educação desde 2013, continua a ser tratada como um tema secundário. Este assunto é abordado de forma pontual nas aulas, sem avaliação nem continuidade, o que levanta sérias questões sobre a formação dos jovens.

Num país onde três em cada dez famílias enfrentam dificuldades financeiras e metade dos jovens adultos não sabe gerir o seu rendimento, a falta de literacia financeira é um problema estrutural. Não se trata apenas de uma falha pedagógica, mas sim de uma falha de cidadania económica. A situação é preocupante, pois muitos alunos não têm acesso a conhecimentos básicos que poderiam ajudá-los a tomar decisões financeiras informadas.

Portugal apresenta um paradoxo: boas intenções, mas fraca execução. Desde o lançamento do Plano Nacional de Formação Financeira e do portal Todos Contam, surgiram várias iniciativas, manuais e guias. Contudo, a aplicação do Referencial de Educação Financeira depende da vontade de cada escola e da disponibilidade dos professores. Sem uma obrigatoriedade clara, as oportunidades de aprendizagem tornam-se desiguais. Enquanto alguns alunos participam em projetos premiados sobre poupança e investimento, a maioria continua sem qualquer contacto sistemático com conceitos de economia pessoal. Apenas um em cada dez alunos atinge um nível de excelência em literacia financeira.

A questão do dinheiro é muitas vezes um tabu em Portugal. Durante décadas, falar sobre finanças foi visto como algo reservado aos adultos, criando uma cultura de silêncio que se revelou prejudicial. Jovens que nunca aprenderam a planear gastos tornam-se adultos que confundem crédito com rendimento. A educação financeira não é apenas uma questão de matemática, mas sim de autonomia e poder de escolha. Ensinar uma criança a compreender o custo das suas decisões é prepará-la para um futuro mais consciente.

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Outros países, como a Finlândia e o Canadá, já perceberam a importância da literacia financeira. Na Finlândia, os alunos aprendem a fazer orçamentos no 3.º ciclo e a simular investimentos no secundário. No Canadá, a educação financeira é obrigatória em todas as províncias desde o ensino básico. Os resultados são claros: jovens mais preparados e uma menor taxa de endividamento. Em contraste, Portugal mantém uma abordagem fragmentada, embora existam boas práticas, como o projeto “No Poupar Está o Ganho”, que já alcançou mais de 80 mil alunos.

A escola e a família têm papéis cruciais na educação financeira. Se a escola falha por falta de estratégia, a família muitas vezes hesita por receio. Muitos pais associam a mesada à ideia de “dar tudo feito”, mas, quando utilizada com propósito, a mesada pode ser uma ferramenta educativa poderosa. Educar financeiramente é formar cidadãos conscientes, e quanto mais cedo se começa, mais natural se torna a relação com o dinheiro.

A ausência de literacia financeira é uma forma disfarçada de desigualdade. Num contexto em que a juventude enfrenta salários baixos e publicidade agressiva, não ensinar finanças é uma negligência institucional. Portugal precisa de uma revolução silenciosa: colocar o dinheiro no centro da educação, não como tabu, mas como uma ferramenta de liberdade. Ensinar o valor do dinheiro é, no fundo, ensinar o valor da liberdade, e essa lição não pode continuar fora das salas de aula.

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Fonte: ECO

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