A Estupidez Inteligente: Reflexões de Musil e Cipolla

A expressão “estupidez inteligente” foi criada pelo escritor austríaco Robert Musil, que viveu entre 1880 e 1942. Musil apresentou esta ideia num ensaio intitulado “Da estupidez”, durante uma conferência em Viena, em 1937. A sua análise, que permanece atual, explora a estupidez como um fenómeno intelectual e social, sendo uma leitura essencial para quem acompanha a política e a sociedade contemporânea.

Musil viveu numa época marcada por profundas mudanças económicas e sociais, semelhantes às que enfrentamos hoje. Na década de 30 do século passado, o mundo atravessava uma crise multidimensional, e a irracionalidade parecia dominar as decisões políticas. Hoje, muitos sentem que a incerteza e a impotência coletiva estão a aumentar, levando a uma situação sem saída visível.

Neste contexto, Musil faz uma distinção importante: a estupidez “honesta e singela”, que resulta de uma razão débil ou ignorância, e a estupidez “inteligente”, que se disfarça de racionalidade e competência. Esta última, muitas vezes associada a pessoas cultas e instituições, pode influenciar decisões políticas e sociais para fins irracionais.

Décadas depois, em 1988, o historiador económico Carlo Cipolla retoma o tema da estupidez no seu ensaio “As leis fundamentais da estupidez humana”. Cipolla, que faleceu em 2000, apresenta uma análise satírica e estatística, estruturada em cinco leis que explicam como a estupidez se distribui e afeta a sociedade.

Uma das representações mais marcantes de Cipolla é um plano cartesiano que classifica os comportamentos humanos em quatro quadrantes. No primeiro quadrante (+, +), estão os “inteligentes”, que beneficiam tanto a si próprios como aos outros. No segundo quadrante (-, +), encontram-se os “desamparados”, que se prejudicam mas ajudam os outros. O terceiro quadrante (-, -) é ocupado pelos “estúpidos”, que prejudicam tanto a si próprios como aos outros. Por fim, no quarto quadrante (+, -), estão os “bandidos”, que obtêm benefícios à custa dos outros.

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Cipolla argumenta que a fração de estúpidos na sociedade é constante, independentemente do estrato social. Esta realidade aplica-se a todos, desde os ignorantes até os laureados com o prémio Nobel, e o impacto da estupidez ultrapassa frequentemente as nossas piores expectativas.

Embora Musil e Cipolla utilizem metodologias e estilos diferentes, as suas análises oferecem um referencial interessante para refletir sobre as dinâmicas sociais, especialmente em tempos de crise. A noção de “estupidez inteligente” de Musil complementa a análise de Cipolla sobre o papel do “bandido”, revelando a complexidade das interações sociais.

Fica a questão: qual é o papel da simples inteligência neste mundo em transformação? Será que ainda há espaço para uma inteligência genuína numa sociedade tão marcada pela irracionalidade?

Leia também: A influência da irracionalidade nas decisões políticas.

estupidez inteligente estupidez inteligente estupidez inteligente Nota: análise relacionada com estupidez inteligente.

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Fonte: Sapo

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