A transformação digital do Estado português tem sido uma das narrativas mais significativas da última década. Serviços que antes exigiam deslocações e longas filas agora estão disponíveis online, oferecendo uma experiência mais simples e eficaz. Exemplos como a Chave Móvel Digital, o IRS Automático e a renovação automática da carta de condução demonstram que o Estado tem a capacidade de inovar e de proporcionar valor real aos cidadãos e empresas.
No entanto, a evolução não pode parar por aqui. A experiência adquirida até agora legitima uma nova ambição: a busca pela excelência. Para isso, é fundamental enfrentar os obstáculos que ainda impedem um avanço mais significativo na transformação digital do Estado.
Apesar de Portugal estar frequentemente entre os países mais bem classificados na digitalização dos serviços públicos na Europa, a realidade vivida pelos cidadãos é mais complexa. Embora existam serviços de qualidade, muitos deles permanecem isolados e pouco integrados. O cidadão e a empresa continuam a ter de “costurar” a sua própria jornada digital entre diferentes portais, o que torna a experiência confusa e fragmentada.
Um dos principais entraves à aceleração da transformação digital do Estado não é a tecnologia, mas sim os processos e as leis que a regem. O Código dos Contratos Públicos, embora tenha sido criado para garantir rigor e transparência, acaba por ser um obstáculo à execução de projetos digitais. A obsessão por adjudicar ao preço mais baixo resulta na exclusão dos melhores fornecedores e na aceitação de propostas que não correspondem ao esforço necessário, levando a atrasos e falhas nos projetos.
Além disso, as parcerias para a inovação, que deveriam ser uma ferramenta útil, tornaram-se burocráticas e lentas, afastando potenciais colaboradores. O processo de adjudicação é tão demorado que, entre planeamento e execução, podem passar até 18 meses, um tempo excessivo no mundo da tecnologia, onde a inovação avança a passos largos.
Ter serviços digitais não é suficiente; é necessário que estes funcionem como um ecossistema integrado. A verdadeira transformação digital do Estado implica a criação de um ambiente onde os serviços se comuniquem entre si, partilhem informações de forma segura e eliminem a repetição de dados por parte dos cidadãos.
Outro fator a considerar é o medo de errar, que inibe a inovação. Muitos decisores hesitam em implementar mudanças por receio de críticas ou consequências legais, o que acaba por congelar decisões e adiar projetos. Num mundo em rápida evolução, governar com medo é sinónimo de estagnação. Para inovar, é preciso ter coragem e uma cultura que permita experimentar e aprender com os erros.
Portugal tem potencial para alcançar um novo patamar na sua transformação digital, mas isso requer coragem política e administrativa. É essencial premiar a qualidade e a competência, acelerar a contratação pública, criar vias rápidas para testar inovações e integrar serviços de forma a proporcionar uma experiência fluida aos cidadãos.
O futuro da Administração Pública em Portugal está em jogo. A próxima década será decisiva para determinar se continuaremos a ter apenas “bons serviços digitais” ou se conseguiremos construir uma Administração Pública verdadeiramente excelente, que impacte positivamente a economia e a confiança dos cidadãos. Para isso, é preciso mais do que tecnologia; é necessário um modelo que permita ao Estado entregar melhores resultados, mais rapidamente e com foco nas necessidades dos cidadãos.
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transformação digital do Estado Nota: análise relacionada com transformação digital do Estado.
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Fonte: Sapo





