Nos últimos anos, a liderança organizacional tem enfrentado desafios sem precedentes, especialmente em um contexto de incerteza geopolítica. Durante décadas, os líderes estavam habituados a gerir crises episódicas, como choques externos ou quebras de mercado. Contudo, a instabilidade atual não é mais transitória, mas sim estrutural, exigindo uma nova abordagem à liderança. Este cenário apresenta desafios significativos na forma como se decide e governa.
Liderar em tempos de crise requer uma ação rápida para restaurar o equilíbrio. No entanto, a instabilidade crónica não oferece um horizonte claro de resolução. A normalidade, que antes servia como referência, já não é um ponto de partida fiável. Os líderes agora operam sob incerteza constante, com informações incompletas e consequências difíceis de prever. Este novo paradigma pode ser um desafio até para os líderes mais competentes.
A excelência técnica e a experiência acumulada, que antes eram sinónimos de sucesso, revelam-se limitadas em ambientes voláteis. A dependência de modelos do passado e a dificuldade em aceitar a nova realidade podem levar a decisões rígidas, num mundo que exige adaptação contínua. O verdadeiro desafio não reside na falta de inteligência, mas na capacidade de abrir mão de certezas e abraçar a incerteza com humildade.
Nos Conselhos de Administração, essa tensão é visível. A multiplicação de indicadores e relatórios pode criar uma falsa sensação de controlo, ignorando a complexidade humana e social das organizações. Muitas vezes, as decisões são tomadas com base numa racionalidade que não capta a natureza imprevisível de fenómenos críticos. A ambiguidade moral e política também permeia a tomada de decisão, onde os líderes frequentemente se veem a escolher entre valores em conflito, como eficiência versus equidade.
Neste novo cenário, liderar implica assumir responsabilidade em condições de incerteza. É fundamental ter clareza de valores e comunicar de forma transparente. As organizações que prosperam não são aquelas que eliminam a instabilidade, mas sim aquelas que desenvolvem lideranças capazes de operar com lucidez em um mundo sem garantias.
Além disso, os líderes enfrentam o desafio de manter a sua saúde física e mental, enquanto sustentam equipas motivadas em ambientes incertos. O autocuidado torna-se essencial para uma liderança eficaz. Gerir a energia física, emocional e mental é tão importante quanto gerir o tempo. Práticas como dormir bem, cuidar da alimentação e estabelecer limites à hiperconectividade são fundamentais para preservar a capacidade de julgamento.
Na prática da liderança, é crucial substituir a promessa de certeza pela clareza. Comunicar prioridades e valores orientadores ajuda a reduzir a ansiedade e a aumentar a confiança nas equipas. Em contextos instáveis, é mais eficaz liderar com sentido do que impor objetivos rígidos que rapidamente se tornam obsoletos. Criar narrativas que apontem caminhos numa realidade fluida e fomentar a autonomia responsável são passos importantes para reforçar a resiliência organizacional.
Por fim, monitorizar sinais de desgaste nas equipas e celebrar conquistas são estratégias que não devem ser vistas como custos, mas como investimentos na sustentabilidade da organização. Liderar na incerteza é aprender a funcionar sem a promessa de estabilidade, criando sentido e confiança em um mundo em constante mudança. Leia também: Como a incerteza molda o futuro das organizações.
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Fonte: Sapo





