O acordo de livre-comércio entre a União Europeia e o Mercosul tem gerado sérias preocupações, especialmente no que diz respeito à segurança alimentar e ao uso de produtos químicos na agricultura e na pecuária. Os agricultores europeus defendem uma fiscalização rigorosa, mas questionam a viabilidade de controlar a entrada de todos os produtos agroalimentares provenientes da América do Sul.
De acordo com o El Economista.es, os negociadores latino-americanos reconheceram dificuldades com a rastreabilidade do uso de fungicidas, inseticidas, antibióticos e hormonas que são proibidos na União Europeia. No entanto, essa questão não foi abordada no texto final do acordo, conforme denunciado por várias organizações agrícolas.
Um dos principais pontos de preocupação são os pesticidas que não são permitidos na UE, como o carbendazim, glufosinato e mancozeb. Estes produtos são amplamente utilizados na agricultura sul-americana, onde nunca foram banidos, o que dificulta a monitorização e a rastreabilidade. O El Economista.es destaca que esses pesticidas estão presentes nas exportações de frutas como as vermelhas, peras, maçãs, frutas cítricas, manga, mamão e abacate.
Outro aspecto sensível é a utilização de hormonas de crescimento proibidas na UE, como o 17β-estradiol, que preocupa especialmente os criadores europeus. Afonso Nascimento, um criador algarvio, questiona: “Como é que Portugal vai controlar a qualidade da carne que vem do Mercosul? As instituições já estão carentes de mão de obra para fiscalizar. Não podemos aceitar este acordo sem uma discussão rigorosa”.
A Associação Zero já alertou que a ratificação deste acordo poderá trazer pesticidas proibidos de volta aos pratos europeus. O tratado beneficiaria principalmente grandes empresas, enquanto a indústria produtora de pesticidas na UE antecipa um aumento nas vendas destes químicos tóxicos no Mercosul. A avaliação inicial da Comissão Europeia projeta um aumento de até 60,2% nas exportações de químicos, borracha e plásticos para os países do Mercosul.
O Brasil é o maior comprador mundial de pesticidas altamente perigosos, tendo aprovado 474 novos pesticidas em 2019, dos quais 44% são proibidos na UE. A Argentina, por sua vez, utiliza cerca de 240.000 toneladas de glifosato anualmente, um herbicida considerado “provável carcinogénico” pela Organização Mundial da Saúde.
Segundo a Associação Zero, o acordo poderá aumentar a produção e exportação de pesticidas tóxicos na UE e expandir o cultivo de culturas associadas a estes produtos no Mercosul, elevando o risco de exposição alimentar em ambos os continentes. Esta situação é vista como incompatível com a Estratégia “Do Prado ao Prato” da UE, que visa reduzir drasticamente o uso de pesticidas e eliminar resíduos não aprovados nos alimentos.
Embora o tratado preveja mecanismos de controlo e cláusulas de salvaguarda para proteger os sectores agrícolas europeus, os agricultores acreditam que fiscalizar as toneladas de produtos agroalimentares que chegam aos portos será extremamente complicado. A entrada em vigor do acordo ainda depende da ratificação pelo Parlamento Europeu, prevista para o segundo trimestre de 2026.
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Fonte: Sapo





