A recente postura de Donald Trump em relação à Europa não deve ser vista como uma simples divergência comercial. O foco imediato pode ser a disputa pela Groenlândia e o reposicionamento estratégico no Ártico, mas o que está em jogo é muito mais profundo. Estamos a assistir a um exercício de coerção estratégica, onde tarifas e pressão económica são utilizadas para impor disciplina política, mesmo a aliados históricos.
Esta abordagem reflete a lógica do “my way or the highway”, uma expressão que encapsula uma postura de comando unilateral: não há espaço para negociação, apenas exigências. Ou há total alinhamento, ou surgem consequências.
Entretanto, não se deve atribuir este padrão apenas ao temperamento volátil de Trump. O fenómeno do trumpismo é, em grande medida, a manifestação de uma tendência estrutural que já existe há décadas. Washington tem alternado entre tratar a Europa como parceira estratégica e vê-la como um mero teatro de apoio, onde as decisões são ratificadas sem questionamento. Mudam os presidentes, mas a expectativa de que a Europa suporte custos económicos e energéticos em nome de prioridades americanas permanece inalterada.
Ao permitir e normalizar este padrão de coerção, a Europa tem-se mostrado menos como parceira e mais como uma entidade subordinada a uma potência que já não se sente obrigada a respeitar os princípios de reciprocidade entre aliados. A arquitetura transatlântica, que foi criada após a Segunda Guerra Mundial para promover segurança e prosperidade, está a ser reconfigurada numa relação hierárquica, onde Washington exige alinhamento automático e penaliza divergências através de medidas económicas.
Esta vulnerabilidade é agravada por um erro fundamental da Europa: a substituição do realismo estratégico por uma política externa moralizada, especialmente no que diz respeito à Rússia. Ao transformar a geopolítica num tribunal de virtude, a Europa confunde retórica com eficácia. O paradoxo é claro: quanto mais rígido o discurso, menor a capacidade de ação autónoma; quanto maior a escalada retórica, maior a dependência externa, com custos económicos e sociais a recair sobre os próprios europeus.
A normalização da ideia de que os Estados Unidos podem coagir os seus parceiros para obter ganhos políticos coloca agora a Europa perante uma escolha histórica: continuar num modelo confortável, mas dependente, ou acelerar a construção de uma verdadeira autonomia estratégica nas áreas de defesa, tecnologia, energia e base industrial. Em suma, a Europa deve decidir se está disposta a pagar o preço da emancipação ou se prefere continuar a suportar o custo silencioso da subordinação.
Para potências como a Rússia e a China, esta fissura representa uma oportunidade clara. Cada tensão entre Washington e Bruxelas enfraquece a coesão ocidental, reforçando a narrativa de hierarquias rígidas e acelerando a fragmentação da ordem que o Ocidente estabeleceu e do qual foi o principal beneficiário nas últimas oito décadas.
O dilema está, portanto, lançado: subordinação confortável ou emancipação estratégica? A resposta a esta questão não só definirá o futuro da Europa, mas também moldará os contornos da próxima ordem global.
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Fonte: Sapo





