O preço da carne em Portugal tem vindo a aumentar de forma significativa, tornando-se um dos principais desafios para o orçamento das famílias. Entre janeiro de 2025 e o início de 2026, a carne de novilho registou uma subida acentuada, colocando-se em níveis que comprometem o poder de compra dos portugueses. Este aumento é resultado de uma crise inflacionária sem precedentes no setor agroalimentar, e as previsões para o restante de 2026 apontam para novas subidas na ordem dos 7%. Este cenário pode transformar a proteína animal num bem de luxo, agravando a crise do custo de vida num país onde os salários não têm acompanhado a inflação.
É importante lembrar que Portugal sempre foi um país importador de carne, mas também exportador para mercados com maior poder de compra. O aumento do preço da carne não é fruto de um único fator, mas sim de uma combinação complexa de eventos climáticos, reduções na oferta e pressões nos custos de produção que exigem respostas políticas urgentes. A seca extrema que afetou o sul da Europa nos últimos anos teve um impacto devastador no setor pecuário, elevando drasticamente o custo das rações. Muitos produtores, confrontados com a inviabilidade financeira, foram forçados a abater fêmeas reprodutoras, reduzindo a capacidade produtiva nacional.
As consequências desta redução já se fazem sentir. Como um novilho requer um longo ciclo para atingir a maturidade, a oferta permanece escassa, mesmo com a melhoria das condições climáticas. O setor do borrego também foi afetado, especialmente devido à recente epidemia da doença da língua azul, que elevou os preços no campo para níveis recorde.
Além disso, existe uma discrepância preocupante entre a produção e o consumo. Apesar dos preços na Bolsa do Bovino terem atingido máximos históricos, os produtores não estão a beneficiar proporcionalmente, lutando contra margens reduzidas devido ao aumento dos custos de energia, fertilizantes e encargos veterinários. Por outro lado, os consumidores enfrentam um cabaz alimentar que, no início de 2026, atingiu valores sem precedentes. A carne de vaca está a ser gradualmente substituída por aves, suínos ou proteínas vegetais, alterando os padrões de consumo por necessidade económica.
Diante deste panorama, é urgente implementar medidas estruturais para proteger a viabilidade do setor e garantir o acesso das famílias à alimentação. É fundamental acelerar a execução dos apoios previstos no Plano Estratégico da Política Agrícola Comum, assegurando que os fundos cheguem rapidamente às explorações para promover a modernização e eficiência. Além disso, devem ser criados incentivos diretos para a recomposição dos efetivos pecuários e uma reformulação do Sistema de Seguros Agrícolas, tornando-o financeiramente acessível para cobrir não apenas fenómenos climatéricos, mas também crises sanitárias.
A transparência é igualmente crucial. O reforço do Observatório de Preços do Agroalimentar é vital para evitar práticas especulativas ao longo da cadeia de valor. O Governo deve considerar medidas sociais mitigadoras, como a reintrodução da isenção de IVA para cortes de carne essenciais e a criação de apoios específicos para famílias vulneráveis, garantindo que a segurança nutricional não seja comprometida.
A crise do preço da carne em Portugal não terá soluções imediatas e requer uma abordagem integrada que reconheça a importância da produção nacional. É essencial agir agora, investindo na resiliência e modernização do setor, para evitar uma crescente dependência externa e a insegurança alimentar. O custo da inação será, sem dúvida, muito superior ao investimento necessário para estabilizar o mercado e proteger tanto os produtores como os consumidores.
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Fonte: Sapo





