O Global Risks Report 2026, elaborado pelo World Economic Forum, destaca a desigualdade como o risco global mais interligado com outros desafios contemporâneos. Este fenómeno não é apenas um problema social ou económico; a desigualdade agrava a instabilidade política, fragiliza a resposta às alterações climáticas, acelera a fragmentação geopolítica e mina a confiança nas instituições.
Num contexto internacional marcado pela incerteza e pela diminuição da cooperação, os riscos emergem de forma interligada e evoluem rapidamente. É alarmante que, no curto prazo, questões como eventos climáticos extremos e poluição estejam a perder destaque nas agendas governamentais, apesar de serem considerados relevantes pela sociedade civil.
Esta desconexão revela duas realidades preocupantes. Primeiro, indica que continuamos a reagir às consequências da desigualdade, em vez de abordarmos as suas causas. Segundo, demonstra que a transição ambiental é frequentemente vista como um custo, quando deveria ser encarada como uma oportunidade para inovação social e económica.
A desigualdade manifesta-se de várias formas, incluindo o acesso a serviços essenciais, ambientes saudáveis, oportunidades económicas e participação cívica. Como sublinha o relatório, esta é também uma falha de imaginação coletiva, uma vez que temos dificuldade em conceber modelos de desenvolvimento que conciliem crescimento económico com inclusão social.
Neste contexto, a economia circular assume um papel crucial que vai além da gestão de resíduos. A forma como utilizamos recursos, organizamos sistemas de recolha e valorização, e envolvemos cidadãos e empresas, impacta diretamente a coesão social, a criação de emprego e a qualidade de vida nas comunidades. Para enfrentar os desafios atuais, é imperativo mudar o paradigma. Investir milhões sem alterar os sistemas existentes tende a gerar resultados limitados. Um exemplo claro é o sistema nacional de reciclagem de embalagens em Portugal, que, apesar de um investimento adicional de 98 milhões de euros em 2025, não conseguiu cumprir as novas metas de reciclagem.
O mesmo se aplica ao conceito de ESG (Environmental, Social and Governance). Mais do que um exercício de reporte, o ESG deve centrar-se em escolhas estruturais que criem valor económico sem transferir custos para a sociedade. Sem uma transformação real dos modelos, o aumento do investimento pode perpetuar ineficiências, em vez de gerar um impacto positivo.
Na Europa e em Portugal, estas escolhas são fundamentais. O relatório alerta para os riscos a longo prazo, como eventos climáticos extremos e degradação dos ecossistemas, que continuam a ser preocupações centrais. Este debate é também relevante em áreas concretas, como o comércio eletrónico, onde a crescente atenção das instituições europeias reflete preocupações com a segurança dos produtos, a proteção dos consumidores e a concorrência leal.
Decisões recentes indicam a necessidade de reforçar a aplicação da legislação existente e garantir a responsabilização ao longo da cadeia de valor. Este é um exemplo claro de como a inovação e a digitalização só são sustentáveis quando baseadas em regras justas e aplicadas de forma eficaz.
A inovação necessária não é apenas tecnológica, mas essencialmente social. É fundamental alinhar políticas públicas, empresas e cidadãos em torno de soluções que abordem simultaneamente a crise ambiental e a crise da desigualdade. Inovar implica reconhecer que aumentar os recursos não é suficiente se mantivermos os mesmos pressupostos. Sem alterar o paradigma, mesmo os maiores investimentos continuarão a produzir resultados semelhantes.
Se a desigualdade é um dos maiores riscos globais do nosso tempo, a sua redução deve ser uma prioridade coletiva. A verdadeira medida da liderança nos próximos anos não estará apenas no crescimento económico, mas na capacidade de garantir que esse crescimento seja mais justo, inclusivo e sustentável. Leia também: O papel da inovação na economia circular.
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Fonte: ECO





