Nos dias 7 e 8 de fevereiro de 2026, o mundo perdeu duas personalidades que deixaram uma marca indelével na construção da identidade africana e na cultura portuguesa: a académica moçambicana Maria Paula Meneses e o icónico músico ganês Ebo Taylor.
A primeira vez que ouvi falar de Maria Paula Meneses foi durante a minha pesquisa para a dissertação de mestrado, onde analisava os impactos dos conflitos armados nas independências de Angola, Moçambique e Guiné-Bissau. A sua produção académica foi uma fonte inestimável. Meneses escreveu sobre a estrutura legal colonial, abordando como os africanos eram classificados em categorias distintas, muitas vezes desumanizadas. A sua análise do projeto nacional da Frelimo, refletida na famosa frase de Samora Machel, “matar a tribo para fazer nascer a nação”, evidenciava o papel do direito como uma ferramenta política, em vez de um meio de consagração do sujeito africano.
Através de um amigo comum, André Caputo Menezes, soube que Meneses foi mentora de pesquisa num projeto sobre pluralismo jurídico em Angola. O seu envolvimento não se limitou ao escritório; ela explorou as periferias de Luanda, observando julgamentos tradicionais e compreendendo a dinâmica política do Estado angolano. Caputo Menezes destacou a sua coragem em percorrer esses espaços e a sua capacidade de analisar criticamente os processos políticos e as vozes frequentemente ignoradas no pós-independência.
Em 2015, tive a sorte de participar de uma mesa redonda com Meneses em Lisboa. Aproveitei a oportunidade para expressar a minha admiração pelo seu trabalho e pela sua capacidade de desconstruir conceitos científicos. O nosso encontro revelou uma mulher de grande humor e simplicidade, uma intelectual acessível. Desde então, mantivemos contacto nas redes sociais, continuando a admirar a sua obra através da leitura dos seus textos e entrevistas.
Quanto a Ebo Taylor, a minha relação com ele é marcada pela devoção e admiração. Como fundador do estilo musical highlife, a sua música, como “Love and Death”, acompanhou-me em momentos importantes da minha vida, desde os meus estudos até os serões com os meus filhos. A sua arte transcendeu fronteiras, unindo culturas e criando laços entre gerações.
A ambos, Maria Paula Meneses e Ebo Taylor, agradeço por me fazerem sentir menos estrangeiro em Portugal. Os seus legados continuarão a inspirar muitos, e a sua memória viverá nas vozes e nas notas que ecoam na cultura africana e portuguesa.
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Maria Paula Meneses Maria Paula Meneses Nota: análise relacionada com Maria Paula Meneses.
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Fonte: Sapo





