Nas últimas semanas, Bad Bunny alcançou um marco que vai além da música pop, tocando questões políticas relevantes nos Estados Unidos. O artista porto-riquenho venceu o Grammy de Álbum do Ano com “Debí Tirar Más Fotos”, tornando-se o primeiro a conquistar esta categoria com um disco totalmente em espanhol. Uma semana depois, ele foi o protagonista do espetáculo do intervalo do Super Bowl, cantando exclusivamente na sua língua materna. Esta ascensão desafia a narrativa histórica de domínio cultural americano.
Benito Antonio Martínez Ocasio, conhecido como Bad Bunny, é tecnicamente cidadão dos Estados Unidos, mas representa também um território frequentemente visto como uma periferia do império. Porto Rico, a sua terra natal, é muitas vezes tratada como um espaço descartável. Em 2024, o comediante Tony Hinchcliffe fez uma declaração controversa sobre a ilha, referindo-se a ela como uma “ilha flutuante de lixo”. Este tipo de discurso intensifica a marginalização da cultura porto-riquenha.
Bad Bunny tem utilizado a sua música como uma forma de reivindicação e de contar a história de Porto Rico. O seu álbum “Debí Tirar Más Fotos”, lançado em janeiro de 2025, é um exemplo claro desta abordagem. Para compreender a profundidade política da sua obra, é importante conhecer a história da ilha. Porto Rico foi uma colónia espanhola até 1898, quando passou para o domínio dos Estados Unidos após a Guerra Hispano-Americana. Embora os porto-riquenhos tenham recebido cidadania americana em 1917, a realidade é que a ilha permanece como um território não incorporado, sem representação no Congresso e sem direito a voto nas eleições presidenciais.
A geração de Bad Bunny cresceu sob a sombra de uma crise económica prolongada, marcada por cortes orçamentais e migração em massa. O furacão Maria, que devastou a ilha em 2017, expôs a fragilidade do sistema elétrico, levando à criação de músicas como “El Apagón”, que critica a privatização da rede elétrica e a gentrificação. A letra expressa o descontentamento com a situação: “Eu não quero ir embora daqui/ Eles que deveriam ir”.
O álbum “Debí Tirar Más Fotos” é descrito por Bad Bunny como o seu “álbum mais porto-riquenho”. A faixa de abertura, “Nuevayol”, faz referência à migração porto-riquenha para Nova Iorque, enquanto “La Mudanza” aborda a repressão política e a luta pela identidade. Bad Bunny levanta a bandeira porto-riquenha, simbolizando a resistência e a luta contra a opressão.
Um dos momentos mais impactantes do álbum é “Lo Que Le Pasó a Hawaii”, onde Bad Bunny traça um paralelo entre Porto Rico e o Havai, alertando para os perigos da especulação imobiliária e da gentrificação. “Eles querem tomar meu rio e também a praia”, canta, refletindo a luta dos jovens que se veem forçados a deixar a sua terra natal em busca de melhores oportunidades.
Além das músicas, Bad Bunny complementa o seu trabalho com vídeos que explicam momentos cruciais da história de Porto Rico, escritos pelo historiador Jorell Meléndez-Badillo. Estas visualizações servem como uma verdadeira aula pública, abordando desde a colonização até a atual dependência económica da ilha.
A curta-metragem que acompanha o álbum, realizada pelo cineasta Jacobo Morales, retrata um bairro transformado, onde os habitantes originais são substituídos por novos moradores. Essa imagem levanta uma questão fundamental: o que resta de um país quando os seus próprios cidadãos não conseguem mais viver nele?
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Fonte: Sapo





