Pobreza Habitacional e Saúde: Uma Ligação Urgente em Portugal

No passado dia 21 de outubro de 2025, a Fundação Oriente foi palco da conferência “Sob o Mesmo Teto”, organizada pela Just a Change. Este evento teve como objetivo unir dois temas frequentemente abordados de forma separada, mas que estão indissociavelmente ligados na realidade portuguesa: a saúde e a habitação. A conferência procurou dar visibilidade à pobreza habitacional, um problema estrutural que afeta diretamente a saúde física, mental e social de milhares de pessoas em Portugal.

Os dados de 2023 reforçam a importância desta ligação. O relatório “Portugal, Balanço Social 2024”, elaborado pela Nova SBE em colaboração com o BPI e a Fundação “la Caixa”, revela que 27,7% das famílias em situação de pobreza vivem em alojamentos sobrelotados. Além disso, 37% destas famílias não conseguem aquecer adequadamente as suas casas, e metade não consegue mantê-las frescas durante o verão. A relação entre a pobreza habitacional e a saúde é não só evidente, mas também urgente. É fundamental colocar este tema no centro do debate público para que possamos desenvolver políticas mais justas, eficazes e humanas.

Pedro Morgado, psiquiatra e professor da Universidade do Minho, destacou que muitas situações de acumulação extrema, dependências e degradação habitacional têm uma origem comum. Doenças como a demência, a depressão e as perturbações obsessivo-compulsivas não são escolhas, mas sim diagnósticos que requerem atenção e cuidados especializados. Muitas vezes, essas condições manifestam-se através da pobreza habitacional, refletindo o sofrimento psicológico não tratado. Em Portugal, menos de 4% do orçamento do SNS é destinado à saúde mental, e 30% dos doentes agudos de psiquiatria aguardam por respostas sociais que demoram a chegar.

Emídio Abrantes, do ICAD-IP, sublinhou que o estigma em torno da pobreza habitacional e da doença psiquiátrica é um problema que precisa ser abordado. Este estigma pode ser social, mas muitas vezes é também internalizado pelo próprio doente. A sua proposta é clara: é necessário investir em literacia e formação qualificada em saúde mental. Através da relação humana, é possível que as pessoas deixem de ser invisíveis e recuperem o direito de ser tratadas como cidadãos plenos, algo que os beneficiários da Just a Change frequentemente partilham sobre as suas experiências.

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Gonçalo Henriques, da Associação Ares do Pinhal, trouxe à discussão casos concretos, como o de um utente que recorreu às urgências 78 vezes, evidenciando o custo da falta de acompanhamento contínuo. A frase “pior do que ser pobre é ser invisível” resume bem a problemática: vidas que circulam repetidamente no sistema de saúde sem nunca terem acesso a uma prevenção adequada.

Esta falta de estrutura reflete-se na deterioração de indicadores como o Índice de Saúde Sustentável da NOVA-IMS. Embora a qualidade e acessibilidade dos serviços se mantenham estáveis ou ligeiramente melhores, o desfasamento entre o que o sistema gasta e o que realmente trata é cada vez maior. O caso deste paciente é um reflexo de um modelo que ainda privilegia a resposta de crise, em detrimento do cuidado contínuo e da prevenção.

O mérito da conferência foi tornar visível o que, por definição, é silencioso. Entre a complexidade dos sistemas de saúde e social e a fragilidade dos cidadãos, é imperativo que o primeiro se adapte ao segundo. A reabilitação não começa apenas nos hospitais ou nas instituições, mas na relação entre profissionais, familiares e amigos das pessoas que precisam de reaprender a “habitar” as suas vidas. A casa oferece proteção, mas essa proteção só é efetiva se houver um sistema capaz de ver, compreender e acompanhar quem dela necessita.

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pobreza habitacional Nota: análise relacionada com pobreza habitacional.

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Fonte: Sapo

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