Nos últimos anos, a evolução da tecnologia tem sido mais rápida do que muitos poderiam imaginar. A adoção da Inteligência Artificial (IA) generativa não foi apenas veloz, mas sim abrupta. Em poucos anos, sistemas que inicialmente respondiam a perguntas passaram a influenciar decisões e a executar tarefas complexas em várias áreas da vida económica, social e política. Este fenómeno não se limita a um novo ciclo tecnológico; é uma mudança estrutural na forma como tomamos decisões.
Entre 2023 e 2026, assistimos a uma compressão histórica do tempo. Capacidades que antes exigiam equipas e anos de formação tornaram-se acessíveis a qualquer pessoa com um modelo de IA. Embora a produtividade individual tenha aumentado, também se intensificou a dependência da tecnologia. O conhecimento tornou-se mais democrático, mas o pensamento crítico nem sempre acompanhou essa democratização. A questão crucial não é se a IA é benéfica ou prejudicial, mas sim quem realmente controla as decisões.
A linha entre decidir e seguir torna-se cada vez mais ténue. A inteligência humana ainda define intenções e valores, mas a prática revela que cada recomendação aceita sem questionamento desloca o centro de decisão. O controlo passa a ser implícito, com sugestões em vez de ordens diretas. Quando as decisões humanas são moldadas por sistemas que operam fora da intuição humana, a distinção entre decidir e seguir torna-se difusa.
Não estamos a falar de uma substituição do ser humano pela máquina, mas sim de uma crescente dependência. A IA não pensa como um humano, mas sim por humanos, a uma escala e velocidade que nenhum cérebro pode acompanhar. À medida que os contextos se tornam mais complexos, a tentação de delegar decisões aumenta. Quanto mais delegamos, menor é a nossa capacidade de auditar e compreender as decisões tomadas. O verdadeiro risco não está na IA cometer erros, mas em aceitarmos que, por ser eficiente, deve ser seguida.
Este dilema é ainda mais relevante quando analisado à escala global. A infraestrutura tecnológica que sustenta esta nova inteligência está concentrada em poucos actores. Empresas e Estados que controlam dados e modelos de IA detêm um poder que vai além do económico, abrangendo também o cognitivo. Figuras como Elon Musk e Jeff Bezos simbolizam esta concentração de poder, que pode moldar decisões em escala global e influenciar o novo paradigma geopolítico.
A soberania, tal como a conhecíamos, está a mudar. Já não se trata apenas de poder territorial ou militar, mas sim de poder algorítmico. Quem define os modelos determina os limites do que é possível. O maior risco não é a IA controlar os Estados, mas sim os Estados aceitarem ser governados por sistemas que não compreendem plenamente.
A consolidação dos modelos multimodais intensifica esta situação. A IA deixou de ser fragmentada e agora integra texto, imagem, áudio e vídeo numa única arquitetura cognitiva. Esses sistemas não apenas respondem a pedidos isolados, mas também interpretam contextos completos e antecipam intenções. A IA torna-se proativa, passando de uma ferramenta a um agente.
As consequências são abrangentes. Na educação, os alunos aprendem com tutores adaptativos. Na saúde, os diagnósticos são baseados em análises integradas. Na indústria, as decisões operacionais combinam dados sensoriais e padrões históricos. Em todos estes casos, a eficiência aumenta, mas também a dependência da lógica do sistema.
A questão central permanece: quem está realmente no controlo quando as recomendações vêm de um sistema que “sabe mais”? Controlar não é apenas decidir, mas compreender o processo e assumir responsabilidade pelas consequências. Sem isso, o controlo é meramente formal.
Não precisamos de futurologia para perceber que, se a mudança foi tão significativa em três anos, o que está por vir em 2026 será ainda mais acelerado. O que levou anos a acontecer poderá agora ocorrer em meses. A relação entre inovação, adoção e dependência encurta-se a cada dia.
Este artigo não é um alerta apocalíptico, mas sim um convite à reflexão. A Inteligência Artificial pode amplificar o melhor do ser humano ou anestesiá-lo. A forma como escolhemos governar esta relação determinará o nosso futuro. A pergunta que se impõe é: estamos a construir sistemas que ampliam a nossa inteligência ou a habituar-nos a abdicar dela? Responder a esta questão é fundamental.
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Inteligência Artificial Inteligência Artificial Nota: análise relacionada com Inteligência Artificial.
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Fonte: Sapo





