A economia de dados emergiu como um dos conceitos mais discutidos no mundo empresarial na última década. Com investimentos significativos em sistemas de informação, plataformas de business intelligence e equipas de analytics, as empresas apostaram também em soluções de inteligência artificial. Contudo, apesar deste esforço, os resultados em produtividade têm sido modestos, e muitos gestores sentem que o retorno sobre o investimento em dados não corresponde às expectativas. O problema não reside na escassez de dados, mas sim na dificuldade em tomar decisões informadas.
As organizações têm acesso a uma quantidade sem precedentes de informação. Dados sobre clientes, operações, mercados e colaboradores são constantemente recolhidos de forma cada vez mais sofisticada. No entanto, muitas decisões críticas continuam a ser tomadas com base na intuição dos líderes ou em hábitos enraizados, em vez de se basearem nas evidências disponíveis. Os dados são frequentemente apresentados em dashboards e relatórios, mas raramente influenciam as escolhas estratégicas. Assim, tornam-se um mero “elemento decorativo” no processo de decisão, em vez de serem o seu motor.
Esta desconexão tem raízes profundas na estrutura organizacional das empresas. Muitas vezes, não existe clareza sobre quais decisões devem ser suportadas por dados, quem é responsável por tomá-las e quais as consequências de ignorar a evidência. Análises são produzidas sem um destinatário claro, e indicadores acumulam-se sem que ninguém os considere relevantes. Quando tudo é medido, nada se destaca verdadeiramente. A abundância de informação pode levar à paralisia ou, pior, à justificação retrospetiva de decisões já tomadas.
Curiosamente, esta realidade não resulta de uma falta de competência técnica. Portugal conta com profissionais qualificados em análise de dados e tecnologia, formados segundo as melhores práticas internacionais. Estudos da OCDE indicam que o problema não está na capacidade de gerar dados, mas na sua integração nos modelos de gestão. Sem uma mudança na forma como se decide, investir em mais tecnologia apenas aumenta a complexidade organizacional.
A cultura de decisão nas empresas é um obstáculo central. Muitas organizações veem os dados como uma ameaça à autoridade hierárquica ou como um risco político interno. Aceitar que a evidência contradiz uma decisão implica expor fragilidades e assumir custos reputacionais. Assim, é mais seguro ignorar a análise ou questionar a sua validade do que mudar de rumo. Os dados acabam por servir para validar escolhas, em vez de orientá-las.
As consequências económicas desta falha são significativas. A má utilização dos dados resulta numa alocação ineficiente de recursos, decisões de investimento subótimas e dificuldade em antecipar mudanças no mercado. Num ambiente de concorrência crescente e margens apertadas, esta ineficiência traduz-se numa perda de competitividade. No espaço económico da União Europeia, onde as empresas operam sob regras semelhantes, mas com níveis variados de maturidade de gestão, a capacidade de decidir melhor torna-se uma vantagem estrutural.
A promessa da economia de dados não falha devido a limitações tecnológicas. O verdadeiro desafio reside na transformação da decisão. Enquanto os dados não desempenharem um papel vinculativo nos processos de gestão, com responsabilidades claras e impacto real, continuarão a ser vistos como um custo, e não como um ativo. A verdadeira economia de dados começa quando decidir com evidência deixa de ser uma opção e se torna uma exigência.
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Fonte: Sapo





