A frase de Plínio, o Velho, “De África vem sempre algo de novo”, continua a ressoar, mas a sua interpretação contemporânea está a mudar. As narrativas que costumam associar o continente africano a riscos e instabilidade estão a ser reescritas. O que antes era visto como um problema estrutural, agora revela-se como uma promessa de oportunidades.
Enquanto o mundo se concentra nas guerras comerciais e nas tarifas, África emerge como um parceiro indispensável para economias que necessitam de matérias-primas, mercados e uma força jovem. Recentemente, os Estados Unidos reativaram o AGOA (African Growth and Opportunity Act), um mecanismo que oferece acesso preferencial ao mercado norte-americano para países da África Subsaariana. Esta proposta, aprovada com um apoio bipartidário significativo, permite que 1.800 produtos africanos entrem nos EUA sem direitos aduaneiros. É uma das raras ocasiões em que Washington opta por isenções em vez de tarifas.
Além disso, as frutas angolanas, como a pitaia, o mamão e a banana, estão a chegar em grandes quantidades ao Bombarral, fruto de parcerias empresariais. Os primeiros abacates do Huambo já partiram rumo aos Países Baixos. Na África do Sul, acordos com empresas alemãs visam expandir a indústria de frutos do mar, promovendo padrões internacionais e acesso isento de tarifas. Da China, a mensagem é clara: “tarifas zero para exportações africanas a partir de 1 de Março”.
No entanto, estas notícias não ocupam as primeiras páginas. Reconhecer que “África é necessária” implica uma revisão das hierarquias tradicionais. O que está em movimento não é um gesto de caridade comercial, mas sim a confirmação da lei económica que rege a eficiência dos mercados. A transição energética exige minerais críticos; as cadeias de abastecimento globais necessitam de diversificação; e os mercados envelhecidos precisam de um impulso demográfico. A complementaridade económica é mais do que uma retórica; é uma estratégia.
O verdadeiro teste será saber se estas novas corridas em direção a África resultarão em padrões assimétricos ou se abrirão caminho para parcerias mais equilibradas. Se os investimentos e acordos comerciais se concentrarem na criação de valor local, na industrialização e na integração regional, então o “novo” de que falava Plínio poderá deixar de ser exótico e marginal, tornando-se um símbolo de maturidade estratégica.
A paz e a prosperidade sustentáveis são construídas através da interdependência produtiva e exigem reciprocidade. Será que de África vem sempre algo de novo? Talvez! Mas, desta vez, o “novo” não é exótico nem periférico; é um eixo central da economia global.
Leia também: O impacto das novas parcerias comerciais em África.
Leia também: Berlim, Paris e Londres preparam ações defensivas contra o Irão
Fonte: Sapo





