A retirada de capital de fundos de crédito norte-americanos levanta preocupações sobre o seu impacto no mercado europeu. Especialistas alertam para a possibilidade de um contágio, embora reconheçam que os mercados dos EUA e da Europa possuem características distintas. A Blackstone, uma das maiores gestoras de ativos, reportou saídas líquidas de 1,7 mil milhões de dólares (cerca de 1,4 mil milhões de euros) no seu fundo BCRED, que tem um valor total de 82 mil milhões de dólares (70,9 mil milhões de euros). Esta situação levou a empresa a aumentar o limite de resgates do fundo de 5% para 7%. Por sua vez, a Blue Owl Capital anunciou a venda de 1,4 mil milhões de dólares em ativos de três fundos de crédito para devolver capital aos investidores e reduzir a sua dívida.
Essas notícias contribuíram para as perdas nas bolsas de valores, com a Blackstone a acumular uma desvalorização de 30% desde o início do ano, enquanto a Blue Owl Capital registou uma queda de 32%. Outras grandes gestoras, como a Apollo, KKR e Carlyle Group, também enfrentaram desvalorizações significativas.
João Sousa Leal, responsável pela área de advisory da KPMG em Portugal, afirma que a Europa “não está imune” a um eventual contágio. O mercado de crédito privado europeu cresceu consideravelmente nos últimos anos, e muitos investidores institucionais europeus têm exposição a gestoras norte-americanas. Nuno Oliveira Matos, presidente da Associação de Investidores e Analistas Técnicos do Mercado de Capitais, sublinha que, embora exista risco de contágio, este se manifestará de forma diferenciada, dado que o mercado europeu depende mais do financiamento bancário tradicional.
Pedro Capitão Barbosa, advogado da Morais Leitão, destaca que, apesar de não haver mecanismos de transmissão diretos entre os mercados, uma crise nos fundos de crédito pode ter repercussões nos ativos alternativos europeus. A redução da exposição a fundos de crédito, tanto norte-americanos como europeus, pode ser uma consequência direta deste cenário.
João Sousa Leal também menciona que as diferenças entre os mercados europeu e norte-americano são relevantes, com o primeiro a ter uma base de investidores mais institucional e com horizontes de investimento mais longos. O risco de contágio poderá manifestar-se de forma gradual, através de uma diminuição nos novos compromissos e de uma maior seletividade na escolha de gestoras.
Além disso, a escalada do conflito no Médio Oriente pode trazer riscos adicionais ao setor. A volatilidade nos preços da energia pode afetar a rentabilidade de empresas em carteiras de private equity, enquanto um ambiente de maior aversão ao risco pode penalizar o apetite por ativos ilíquidos. A incerteza geopolítica pode prolongar as taxas elevadas, comprimindo as margens nas estratégias de financiamento.
Nuno Oliveira Matos alerta que um choque significativo nos preços da energia pode prolongar as pressões inflacionistas e atrasar a normalização monetária, aumentando o custo do capital. No entanto, o impacto do conflito dependerá da sua dimensão macroeconómica e da duração das tensões.
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fundos de crédito Nota: análise relacionada com fundos de crédito.
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Fonte: Sapo





