A recente escalada do conflito no Médio Oriente, com a eclosão da guerra no Irão, trouxe novamente a geopolítica para o centro das preocupações económicas globais. A experiência da invasão da Ucrânia ensinou-nos que choques geopolíticos em regiões estratégicas tendem a resultar rapidamente em inflação. Assim, o mundo pode estar à beira de um novo choque inflacionista, impulsionado pelo aumento dos preços da energia.
Para Portugal, as consequências vão além do crescimento económico e do poder de compra das famílias. A inflação também impacta as contas públicas, um aspecto frequentemente menos discutido. O episódio inflacionista que se seguiu à guerra na Ucrânia demonstrou que o Estado pode beneficiar de um aumento automático das receitas fiscais, superando os apoios concedidos à economia. Este fenómeno resultou no maior excedente orçamental em democracia em 2023.
Se a nova conjuntura internacional provocar um surto inflacionista, a gestão deste “dividendo orçamental” será crucial. É necessário um equilíbrio, de forma a que o peso do choque não recaia excessivamente sobre as famílias e empresas. O PSD, que lidera a coligação governamental, deve lembrar as críticas feitas ao governo anterior sobre este equilíbrio.
A situação é complexa, pois Portugal enfrenta também pressões extraordinárias nas finanças públicas, devido aos danos causados por tempestades em várias regiões. Bruxelas já indicou que despesas relacionadas com fenómenos climáticos excepcionais não serão consideradas para o novo indicador europeu de despesa líquida, o que reforça a necessidade de uma gestão equilibrada do eventual dividendo da inflação.
O conflito no Irão é relevante pelo seu potencial impacto no sistema energético global, especialmente no Estreito de Ormuz, que é um dos principais “gargalos” da economia mundial. Neste estreito, transita cerca de 20% do petróleo mundial e um terço do comércio global de fertilizantes. Qualquer perturbação neste corredor marítimo pode ter um efeito imediato na economia global, provocando um aumento dos preços da energia.
O impacto em Portugal é direto, uma vez que o país importa quase toda a sua energia. A subida dos preços internacionais do petróleo e do gás traduz-se rapidamente em combustíveis mais caros, resultando em um impacto inflacionista tanto direto, nas faturas das famílias, como indireto, através do aumento dos custos para as empresas. O setor alimentar, em particular, é sensível a estas flutuações.
Além disso, a incerteza gerada por conflitos geopolíticos pode atrasar decisões de investimento e reduzir a formação de capital. As empresas exportadoras, especialmente as PME, enfrentam não só o aumento dos preços da energia, mas também a disrupção de rotas comerciais e a volatilidade dos mercados internacionais.
Portugal poderá ainda sentir efeitos indiretos no turismo, com o aumento do custo do transporte aéreo a potencialmente reduzir os fluxos turísticos. No entanto, a imagem de Portugal como um destino seguro pode atrair turistas que evitam regiões de conflito, embora este efeito seja temporário.
Por último, a inflação tende a gerar um aumento automático das receitas fiscais, o que pode beneficiar o Estado. Contudo, se as famílias e empresas suportarem a maior parte do impacto, a melhoria das contas públicas poderá ocorrer à custa do rendimento do setor privado. A prudência orçamental é necessária, mas a questão de quem absorve o custo do choque energético permanece.
Leia também: O impacto da inflação nas contas públicas e no seu bolso.
impacto da guerra impacto da guerra impacto da guerra impacto da guerra impacto da guerra Nota: análise relacionada com impacto da guerra.
Leia também: Reembolsos fiscais aumentam: onde investir num mercado instável?
Fonte: ECO





