Num contexto global marcado por tensões geopolíticas e uma crescente pressão climática, a energia tornou-se um elemento central na dinâmica de poder. A guerra na Ucrânia e a volatilidade dos mercados petrolíferos evidenciam que a segurança energética é tão crucial quanto a segurança militar. Para Angola, a transição energética não é apenas uma opção, mas uma necessidade premente, uma vez que o país tem estado excessivamente dependente do petróleo.
Durante anos, o petróleo foi responsável por mais de 95% das exportações e pela maior parte das receitas públicas. Esta dependência torna Angola vulnerável a crises sempre que o preço do crude oscila. Além disso, mais de metade da população angolana ainda não tem acesso à eletricidade, e nas zonas rurais, a situação é ainda mais alarmante, com cerca de 87% das famílias sem este recurso essencial. Muitas comunidades dependem de geradores a diesel, o que encarece a produção e limita a competitividade económica.
A transição energética em Angola é, portanto, uma questão de soberania económica e justiça social. A eletricidade é fundamental para a industrialização, diversificação económica e inclusão produtiva. Sem um fornecimento de energia estável e acessível, não há espaço para uma agricultura mecanizada competitiva ou uma indústria transformadora robusta.
Apesar dos desafios, Angola tem dado passos significativos na sua transição energética. A expansão da energia hidroelétrica, com projetos como a Barragem de Laúca e a Barragem de Caculo Cabaça, está a aumentar a capacidade de geração renovável e a reduzir a dependência de fontes térmicas. Além disso, o programa de eletrificação de 60 comunas, que utiliza sistemas solares com armazenamento em baterias, é um avanço importante na inclusão energética de áreas remotas.
Iniciativas como a Central Fotovoltaica de Quipungo, em parceria com a empresa Masdar, demonstram que Angola pode atrair investimento internacional para diversificar a sua matriz energética. A inauguração do parque fotovoltaico autónomo “Cazombo”, que levará eletricidade limpa a uma comunidade isolada de mais de 130 mil habitantes, é um exemplo claro do potencial do país na transição energética.
No entanto, para que a transição energética seja bem-sucedida, é necessário mais do que projetos isolados. É essencial desenvolver uma estratégia integrada que una energia, indústria e financiamento. Criar incentivos para a produção local de equipamentos e formar quadros técnicos especializados são passos fundamentais para garantir a estabilidade regulatória que inspire confiança aos investidores.
A transição energética deve ser encarada como um instrumento de reindustrialização e não apenas como uma substituição de fontes de geração. Angola tem a oportunidade de se afirmar como um produtor relevante de energias limpas em África, aproveitando o seu vasto potencial solar e hídrico.
A questão central é clara: queremos continuar dependentes de um recurso cujo futuro é incerto ou desejamos construir uma economia elétrica, moderna e resiliente? A resposta a esta pergunta definirá o futuro de Angola no século XXI. A transição energética não deve ser vista como uma ameaça ao sector petrolífero, mas como uma estratégia complementar para preparar o país para um mundo em constante transformação. Adiar essa escolha pode ter custos muito mais elevados do que qualquer investimento necessário neste momento.
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Fonte: Sapo





