Pedro Fontes Falcão, diretor do Instituto Português de Corporate Governance (IPCG), e António Gomes Mota, membro da direção do instituto, lançaram recentemente o “Manual de Corporate Governance – Uma abordagem empresarial”. Este manual tem como objetivo oferecer uma visão abrangente sobre a governança corporativa e a sua aplicação prática nas empresas. Em entrevista ao ECO/Capital Verde, Fontes Falcão partilhou algumas reflexões sobre a evolução da governança em Portugal.
O diretor do IPCG destaca uma evolução positiva na governança corporativa das empresas nacionais. Segundo ele, as empresas passaram de uma fase em que os administradores não executivos tinham um papel passivo, focando mais no “know who” do que no “know how”, para um contexto em que se exige uma participação mais ativa. “Não queremos uma equipa de 11 ‘Ronaldos’. O importante é que o coletivo forme uma boa equipa”, sublinha.
Fontes Falcão também abordou o papel da inteligência artificial na governança corporativa. Para ele, esta tecnologia pode ser uma aliada na análise de dados e na criação de cenários, mas alerta para a necessidade de uma verificação rigorosa das informações. “Não se pode abdicar da nossa capacidade, e por isso é que as pessoas são administradoras”, afirma, enfatizando que a intuição e a experiência humana continuam a ser cruciais nas decisões.
Em relação à implementação de boas práticas de governança em Portugal, Fontes Falcão considera que o país está no bom caminho, mas ainda há espaço para melhorias. Ele recorda o caso do Banco Espírito Santo (BES), onde a falta de supervisão por parte dos administradores não executivos foi evidente. “Antes, os não executivos eram escolhidos por conhecerem alguém, mas isso não deve ser o principal critério”, destaca.
O diretor do IPCG acredita que o código do instituto tem sido uma ferramenta valiosa para a melhoria da governança nas empresas, mas ainda falta a presença de administradores não executivos em alguns conselhos de administração. Além disso, é fundamental que estes questionem e desafiem os administradores executivos para garantir decisões mais robustas.
Fontes Falcão também abordou a questão da seleção e avaliação dos administradores. Embora setores como o bancário e o segurador tenham regras rigorosas de seleção, muitos outros ainda carecem de processos mais estruturados. Ele defende a adoção de um sistema “fit and proper” em todos os setores, adaptado à realidade de cada empresa.
Outro tema relevante é a disparidade salarial entre administradores e trabalhadores. Fontes Falcão observa que, embora em Portugal essa diferença não seja tão acentuada como nos Estados Unidos, é uma questão que deve ser abordada pelas empresas. “As comissões de remuneração estão a monitorizar essa disparidade, mas ainda não há uma prática consolidada para a resolver”, afirma.
Por fim, o diretor do IPCG considera que a transformação digital e a inteligência artificial são tendências que devem ser integradas nos conselhos de administração. No entanto, alerta para os riscos associados ao uso indevido de dados e à dependência excessiva da tecnologia. “A IA pode ser uma ferramenta poderosa, mas não devemos deixar de lado a nossa capacidade de análise e discussão”, conclui.
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Fonte: ECO





