No passado sábado, 21 de março, Lisboa foi palco da Marcha pela Vida, uma iniciativa anual que reúne centenas de portugueses em defesa da dignidade humana. Este evento, que é apartidário e acontece desde 2012, contou com a presença de famílias, jovens e crianças. No entanto, a manifestação foi marcada por um incidente alarmante: um homem de 39 anos atirou um cocktail Molotov na direção dos participantes, embora o engenho não tenha chegado a incendiar. A PSP deteve o agressor no local e identificou três outros indivíduos ligados a um grupo anarquista.
A palavra “sorte” não deveria ser usada neste contexto, mas é ela que separa este dia de uma tragédia. A Federação Portuguesa pela Vida, organizadora da Marcha pela Vida, pediu que o ataque seja tratado como um ato de terrorismo. José Manuel Anes, fundador do Observatório de Segurança, Criminalidade Organizada e Terrorismo, confirma que, segundo a definição técnica, o ato se classifica como terrorismo, uma vez que visou civis não-combatentes.
O que perturba não é apenas o ato violento, mas o que ele revela sobre a nossa convivência democrática. A Marcha pela Vida foi uma manifestação pacífica, onde os participantes exerceram o seu direito constitucional de reunião e expressão. Discordar do movimento pró-vida é legítimo e deve ser feito através de debate e argumentação, mas responder com violência não tem lugar numa sociedade civilizada.
O radicalismo não escolhe bandeiras e instala-se onde a intolerância prospera. Quando o discurso público normaliza a ideia de que certas opiniões são uma ameaça, cria-se um ambiente propício para atos violentos. A Federação apelou a todos que têm utilizado um tom de ódio contra o movimento pró-vida para refletirem sobre as consequências das suas palavras. Este apelo é um alerta: as palavras têm peso e, quando se desumaniza o outro, há sempre quem esteja disposto a agir de forma trágica.
O ministro da Administração Interna, Luís Neves, reagiu ao incidente, assegurando que não serão toleradas formas de extremismo violento e que o Estado continuará a agir para garantir a segurança e os valores democráticos. As suas palavras são corretas, mas é fundamental que se traduzam em ações concretas, desde a investigação até à condenação exemplar dos responsáveis.
Portugal não é um país violento. A nossa tradição democrática, conquistada após décadas de ditadura, é um bem precioso que não deve ser ameaçado por quem confunde militância com impunidade. Defender a vida, ou qualquer causa legítima, não pode comprometer a segurança de quem o faz. Quando isso acontece, todos perdemos.
Que este ataque sirva de alerta. A resposta do Estado deve ser proporcional à gravidade do que ocorreu. Leia também: “A importância do diálogo em tempos de polarização”.
Marcha pela Vida Marcha pela Vida Nota: análise relacionada com Marcha pela Vida.
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Fonte: Sapo





