A experiência do consumidor tem vindo a ser profundamente afetada por fatores geopolíticos, que transformam a forma como compramos. A era da logística rápida, em que um simples clique resultava na entrega quase imediata de produtos, está a ser desafiada por conflitos internacionais que têm um impacto direto na jornada de compra.
As tensões no Médio Oriente, em particular, têm gerado constrangimentos no Estreito de Ormuz, obrigando os navios a desviar-se pelo Cabo da Boa Esperança. Este desvio acrescenta cerca de duas semanas ao tempo de entrega e eleva os custos de transporte, refletindo-se, inevitavelmente, nos preços que os consumidores pagam. Assim, a jornada do consumidor começa a ser marcada pela “ansiedade de disponibilidade”, onde a procura não se limita apenas ao melhor preço, mas sim à certeza de que o produto está efetivamente disponível.
Com a incerteza a pairar sobre a disponibilidade dos produtos, muitos consumidores optam por visitar lojas físicas, preferindo ver o que está em stock em vez de arriscar uma compra online. Esta mudança de comportamento é impulsionada pela “ansiedade da escassez”, uma vez que marcas que dependem de componentes asiáticos enfrentam frequentes rupturas de stock. O resultado é uma paralisia na análise de opções, levando os consumidores a adiar decisões ou a escolher alternativas locais, que nem sempre são tão variadas.
No momento da compra, o impacto é tanto financeiro como psicológico. A inflação que se sente nos supermercados e nas lojas de eletrónica é um reflexo direto do aumento dos custos das matérias-primas e do transporte marítimo, que triplicaram em muitos casos. Em Portugal, a situação é ainda mais crítica, dado que as mercadorias demoram mais a chegar e os custos de transporte são elevados. Para contornar este problema, algumas empresas têm recorrido a estratégias como a shrinkflation, que consiste na redução do tamanho das embalagens sem alterar o preço, ou a skimpflation, que envolve a substituição de ingredientes por alternativas mais baratas.
O ato de comprar deixou de ser um momento de satisfação e transformou-se num exercício de gestão de expetativas. A promessa de entrega, que antes era um sinal de confiança, agora é vista com ceticismo. O conceito de “Click-to-Ship” tornou-se vulnerável a bloqueios e escassez, e os aumentos nos custos de energia apenas agravam a situação, tornando a disponibilidade dos produtos numa questão de sorte.
O impacto mais severo ocorre no pós-compra. A logística de última milha, que é a fase final da entrega, está a revelar-se uma área problemática. Quando um sofá ou um computador chega com atraso, a frustração do consumidor é frequentemente direcionada ao retalhista, e não à geopolítica. Este fenómeno está a minar a fidelização do cliente, construída ao longo de anos. As empresas enfrentam um aumento no volume de reclamações, não por falhas de fabrico, mas por problemas logísticos que estão fora do seu controlo.
A experiência pós-venda tornou-se uma fonte de stress, com os consumidores a consultarem obsessivamente o rastreio das suas encomendas. Em suma, o consumidor está a ser forçado a um “novo realismo”. O perfil do comprador de 2026 é mais cauteloso e analítico, avaliando o risco logístico antes de realizar uma compra. A segurança do abastecimento tornou-se a nova prioridade, e as empresas que não conseguirem garantir essa previsibilidade arriscam perder a confiança de um público que já não aceita a espera como resposta.
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Fonte: Sapo





