Os Estados Unidos enfrentam um momento crítico na sua história, onde a hegemonia americana parece estar a ser questionada. Este fenómeno não resulta apenas da ascensão de potências rivais, mas sim de um sistema de poder que se tornou mais caro e menos eficaz. A comparação com a crise de Suez, em 1956, revela lições importantes sobre o uso da força e a capacidade de manter a ordem internacional.
Naquele ano, o primeiro-ministro britânico Anthony Eden acreditava que poderia agir como se o império britânico ainda estivesse no auge. A nacionalização do Canal de Suez pelo líder egípcio Gamal Abdel Nasser foi vista como uma afronta, levando a uma intervenção militar. Contudo, a pressão dos Estados Unidos sobre a libra esterlina demonstrou que, apesar da força militar, o Reino Unido já não tinha o controle que uma vez possuía. A Grã-Bretanha estava armada, mas a sua capacidade de impor autoridade tinha-se esvaído.
Hoje, Donald Trump, com a sua abordagem populista e assertiva, corre o risco de repetir os erros de Eden. Ambos os líderes acreditam que a força militar é suficiente para restaurar a ordem, ignorando que a verdadeira autoridade vai além da capacidade bélica. A hegemonia americana, embora ainda dominante, enfrenta desafios significativos. O Irão, por exemplo, não precisa derrotar os Estados Unidos em combate direto; basta resistir e demonstrar que a força militar não se traduz em obediência política.
O Estreito de Ormuz, onde transita uma parte significativa do petróleo mundial, é um ponto estratégico crucial. O Irão compreende que a sua força reside na capacidade de criar instabilidade suficiente para tornar a vitória americana politicamente dispendiosa. A analogia com Suez é pertinente: a crise de 1956 não se limitou a uma operação militar, mas revelou a incapacidade do Reino Unido de controlar os fundamentos económicos da sua influência. A hegemonia americana, embora ainda robusta, pode estar a enfrentar uma erosão semelhante.
A situação atual é mais complexa do que em 1956. O sistema internacional é agora multipolar, com vários atores a desafiar a ordem estabelecida. A erosão da hegemonia americana não significa a ascensão imediata de um novo império, mas sim uma multiplicidade de forças que exploram a fragilidade da capacidade dos Estados Unidos de manter a ordem global.
O Irão não precisa de conquistar, apenas de sobreviver. Esta resistência é suficiente para questionar a eficácia da hegemonia americana. A política externa dos Estados Unidos tem frequentemente subestimado a paciência e a tolerância ao sofrimento de regimes sob pressão. O tempo e a resiliência são aliados dos que resistem.
A ironia histórica é evidente: em 1956, os Estados Unidos foram os responsáveis por empurrar o Reino Unido para fora do Médio Oriente. Agora, os Estados Unidos podem descobrir que já não detêm o mesmo controle sobre a região. A hegemonia americana não está a colapsar de forma imediata, mas sim a desgastar-se lentamente, à medida que a capacidade de transformar força em resultados se torna cada vez mais difícil.
O que se passa em Ormuz poderá ser um ponto de viragem, onde Washington percebe que a imposição de ordem tem um custo elevado. Quando uma potência chega a esse ponto, o desafio torna-se civilizacional. Um império começa a definhar quando, apesar de falar a linguagem da ordem, apenas consegue gerar desordem.
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Fonte: Sapo





