As stablecoins, uma forma de dinheiro digital que tem ganho destaque, já circulam em volumes que rivalizam com muitos sistemas bancários tradicionais. No entanto, a maioria dos portugueses ainda não está familiarizada com este conceito. Estas criptomoedas são projetadas para evitar as grandes oscilações de preço que caracterizam outras moedas digitais, como o Bitcoin, uma vez que o seu valor está ancorado a ativos reais, como o dólar ou o euro. Exemplos conhecidos incluem o Tether (USDT) e o USD Coin (USDC).
De acordo com o mais recente Relatório de Estabilidade Financeira Global do Fundo Monetário Internacional (FMI), os fluxos transfronteiriços de stablecoins dispararam de 12 mil milhões de dólares no primeiro trimestre de 2020 para impressionantes 316 mil milhões de dólares no primeiro trimestre de 2025. Este crescimento deixa para trás os fluxos de Bitcoin e Ethereum e levanta preocupações sobre os riscos associados a estas moedas digitais, especialmente para as economias emergentes.
A popularidade das stablecoins pode ser explicada pela sua utilidade em países onde a moeda local está a desvalorizar rapidamente. Em nações como a Ucrânia, o Vietname e a Bielorrússia, estas criptomoedas já representam percentagens significativas do PIB anual, funcionando como um refúgio acessível para muitos cidadãos. Contudo, o FMI alerta que a crescente procura por stablecoins em países com fundamentos económicos fracos pode levar a uma substituição da moeda local, o que compromete a capacidade dos bancos centrais de controlar a política monetária.
Este fenómeno não é isolado, mas insere-se numa transformação financeira mais ampla que se intensificou após a crise financeira de 2008. Os bancos, que outrora eram o principal canal de financiamento externo para os mercados emergentes, viram o seu papel ser progressivamente assumido por investidores não bancários, como fundos de investimento e seguradoras. Atualmente, cerca de 80% dos fluxos de capital para estes mercados provêm do setor não bancário, o que representa um aumento significativo em relação a duas décadas atrás.
Embora esta transformação tenha trazido benefícios, como acesso a financiamento mais barato e melhores condições para as empresas locais, o FMI sublinha os riscos associados. Os fluxos de capital para os mercados emergentes tendem a ser altamente voláteis, especialmente em tempos de incerteza global. O relatório indica que as stablecoins tendem a intensificar-se em momentos de aversão ao risco, comportando-se como um ativo de refúgio digital, semelhante ao dólar físico.
Além disso, a análise do FMI mostra que as reações dos investidores não bancários variam significativamente em tempos de crise. Por exemplo, um aumento da volatilidade nos mercados pode levar a saídas de capital significativas, especialmente nos países mais vulneráveis, onde a fragilidade das instituições e a elevada dívida pública exacerbam a situação.
Diante deste cenário, o FMI recomenda que os países emergentes reforcem os seus fundamentos macroeconómicos e diversifiquem a sua base de investidores, priorizando aqueles de longo prazo. Quanto às stablecoins, o relatório apela a uma supervisão mais rigorosa e a uma melhor partilha de dados entre países, reconhecendo que a regulação global ainda é fragmentada.
A cooperação internacional é, portanto, fundamental para mitigar os riscos associados às stablecoins e garantir a estabilidade financeira global. Sem uma abordagem coordenada, os riscos não desaparecem, mas podem migrar para áreas menos vigiadas do sistema financeiro mundial.
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Fonte: ECO





