A recente subida acentuada e volátil dos preços da energia, em particular do gás natural, eletricidade e petróleo, trouxe à tona um choque energético que afeta diretamente os consumidores e empresas. Este fenómeno resulta de uma combinação de fatores estruturais e geopolíticos, que se fazem sentir na carteira dos portugueses.
Um dos principais motores deste aumento foi a guerra na Ucrânia, que evidenciou a dependência da Europa do gás russo. A redução do fornecimento provocou uma escassez que, por sua vez, impulsionou os preços para níveis elevados. Além disso, a economia global continua a depender fortemente de combustíveis fósseis, o que torna o sistema energético vulnerável a choques externos, como conflitos e sanções.
A transição para fontes de energia renovável, embora em curso, ainda não é suficiente para garantir a estabilidade do sistema. A produção de energia eólica e solar é intermitente e depende de condições climáticas, o que dificulta a sua implementação em larga escala. A recuperação económica pós-pandemia também contribuiu para a pressão sobre o sistema energético, uma vez que a demanda por energia aumentou rapidamente, enquanto a oferta não conseguiu acompanhar.
Atualmente, o conflito no Médio Oriente agrava ainda mais a situação, com previsões de que este choque energético se prolongue. O aumento generalizado dos preços está a alimentar a inflação, elevando o custo de vida e pressionando as empresas com custos operacionais mais altos. A situação no estreito de Ormuz, que afeta cerca de 20% das exportações globais de petróleo, poderá ter repercussões significativas a nível mundial.
António Costa Silva, especialista em energia e ex-ministro da Economia, alertou que cada cinco dias de disrupção no fornecimento de petróleo representam milhões de barris em falta na economia global. Os impactos já são visíveis, desde o aumento dos preços dos fertilizantes até à instabilidade nos mercados. Silva defendeu que, mesmo que o conflito termine rapidamente, os efeitos se farão sentir por mais dois anos, conforme indicado pela Comissão Europeia.
Para Portugal, a prioridade deve ser o reforço do abastecimento, a gestão da procura e a aceleração da eletrificação. Agostinho Pereira de Miranda, especialista em Direito da Energia, afirmou que este choque poderá ser mais significativo do que os de 1973 e 1979, embora os seus efeitos ainda não estejam totalmente refletidos nos preços. Ele alertou que os modelos contratuais do setor petrolífero não estão preparados para a atual volatilidade e que Portugal continua a depender do exterior, especialmente no abastecimento de diesel.
Duarte Cordeiro, ex-ministro do Ambiente, destacou que, apesar de Portugal ter aumentado a eficiência no consumo de eletricidade, a dependência de combustíveis fósseis, especialmente na mobilidade, permanece elevada. Ele defendeu que é crucial aumentar a instalação de energias renováveis para cumprir as metas do Plano Nacional de Energia e Clima (PNEC) e reduzir a dependência de poucos fornecedores.
Em resumo, estamos a enfrentar uma crise conjuntural que revela as fragilidades do sistema energético global. A transformação deste setor é urgente e deve ser acompanhada de um pensamento estratégico para enfrentar os desafios geopolíticos atuais. Leia também: O futuro das energias renováveis em Portugal.
choque energético choque energético choque energético Nota: análise relacionada com choque energético.
Leia também: Governo admite fragilidades após apagão e reforça resposta
Fonte: Sapo





