As Forças Populares 25 de Abril (FP-25) continuam a ser um tema delicado na sociedade portuguesa. O impacto das suas ações, que resultaram em 20 mortes entre 1980 e 1987, incluindo a de uma criança, e a ligação a Otelo Saraiva de Carvalho, uma figura central da Revolução de Abril, tornam a discussão sobre as FP-25 complexa e, muitas vezes, carregada de emoções. Para explorar esta questão, o historiador e investigador Francisco Bairrão Ruivo lançou o livro “As FP-25 e o Pós-Revolução: ‘Normalização’ e violência política”, que resulta de uma investigação aprofundada que começou com o filme “Projeto Global”, do realizador Ivo Ferreira, atualmente em exibição nas salas de cinema.
Em entrevista ao Jornal Económico, Bairrão Ruivo, que se especializou em História Contemporânea, explica que o filme, apesar de ser uma obra de ficção, suscitou a necessidade de entender como um grupo de indivíduos se organizou para formar uma estrutura terrorista com o objetivo de derrubar a ordem estabelecida. O historiador mergulhou em um tema que não havia explorado antes, consultando processos judiciais e entrevistando tanto membros da organização quanto elementos da Polícia Judiciária envolvidos na investigação. Este trabalho resultou numa vasta coleção de informações que o levaram a escrever o livro, dado que a abordagem das FP-25 tem sido fragmentada.
Bairrão Ruivo sublinha que as FP-25 são um assunto brutal e violento, semelhante ao terrorismo da extrema-direita, que também não recebeu a atenção histórica que merece. O historiador argumenta que, embora muitos considerem as FP-25 um tema mais jornalístico do que histórico, ele acredita que é um assunto que já justifica uma análise rigorosa. O recente espaço temporal é um dos obstáculos para uma abordagem mais ampla, uma vez que a ligação de Otelo Saraiva de Carvalho à organização complica a narrativa. O Projeto Global, que incluiu as FP-25, foi concebido por Carvalho, uma figura que simboliza a luta pela democracia em Portugal, mas que também esteve envolvida em ações que resultaram em mortes.
O historiador observa que a percepção comum dos anos 80 em Portugal é distorcida. A ideia de que o 25 de Novembro de 1975 estabilizou a sociedade ignora a violência e a convulsão social que marcaram a década. As FP-25 emergiram num contexto de crise política e social, e o livro de Bairrão Ruivo, com mais de 250 páginas, analisa as origens, motivações e consequências da organização. O autor propõe uma reflexão sobre a violência política das FP-25, contextualizando-a como um processo histórico sem cair na demonização ou desculpabilização.
A obra “As FP-25 e o Pós-Revolução: ‘Normalização’ e violência política” é uma contribuição significativa para a compreensão de um período conturbado da história recente de Portugal, desafiando a visão simplista de um país de “brandos costumes”.
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Fonte: Sapo





