Partidos portugueses ignoram problemas sociais graves

Nos últimos anos, tem-se verificado uma tendência preocupante entre os principais partidos políticos em Portugal: a falta de seriedade na abordagem dos problemas sociais. Esta situação é especialmente visível quando os partidos estão na oposição, período em que deveriam preparar-se para o regresso ao poder. Contudo, essa preparação parece não ser uma prioridade.

Não se pode alegar a falta de recursos como desculpa para esta inação. Em primeiro lugar, a escassez de meios resulta, em grande parte, de decisões políticas que priorizam gastos em áreas menos relevantes, em detrimento de estudos e análises aprofundadas. Em segundo lugar, existe um vasto número de profissionais qualificados na sociedade civil dispostos a colaborar com os partidos.

Recordo que, há quase duas décadas, participei num grupo de estudo do gabinete de estudos do PSD. Na altura, dedicámos mais tempo a discutir o PIB do segundo trimestre do que a elaborar propostas concretas para o programa eleitoral. Este exemplo ilustra bem o desaproveitamento de recursos humanos e a falta de foco na resolução de problemas sociais.

Quando os partidos estão no governo, a situação não melhora. A desculpa da falta de meios deixa de ser válida, pois deveriam ter a capacidade e os recursos para realizar estudos aprofundados sobre as questões que afetam a sociedade. Se houvesse uma verdadeira vontade de abordar os problemas sociais, veríamos um esforço significativo na sua análise. Em vez disso, as políticas parecem ser baseadas em apresentações superficiais, que mais parecem saídas de uma conversa de café, sem a profundidade necessária.

Um dos exemplos mais evidentes desta falta de seriedade é a questão da habitação. Passados quase dez anos desde o início da atual crise, ainda não houve uma iniciativa governamental para realizar um estudo rigoroso e quantificado sobre esta problemática. Embora haja divergências sobre as soluções políticas – sejam elas mais liberais ou intervencionistas – não é possível encontrar boas soluções sem um entendimento básico da realidade. Este conhecimento é fundamental para um diagnóstico eficaz.

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Atualmente, estamos a construir apenas um terço do que se construía há 20 anos, enquanto assistimos a uma entrada massiva de imigrantes. Será que já foi feito um diagnóstico detalhado sobre os obstáculos à construção? Quanto do aumento dos custos de construção se deve às exigências de segurança, algumas das quais são excessivas? Se o número de licenciamentos duplicar, será que o setor da construção conseguirá acompanhar essa demanda? E se a construção aumentar, o crédito bancário terá condições para crescer na mesma proporção?

É certo que existe resistência à mudança, mas também há um cansaço crescente entre os eleitores face a alterações mal pensadas, que não resolvem os problemas e, em vez disso, criam novos bloqueios. A falta de seriedade na abordagem dos problemas sociais em Portugal é uma questão que precisa de ser urgentemente revista.

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problemas sociais Nota: análise relacionada com problemas sociais.

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Fonte: Sapo

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