Representantes da Casa da Cultura da Guiné-Bissau (CCGB) sublinham a urgência de resgatar o pensamento de Mário Pinto de Andrade para enfrentar as crises atuais nos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP). Esta iniciativa é vista como uma mudança de paradigma que deve centrar-se na soberania intelectual e política.
Sumaila Jaló, membro fundador da CCGB e parte da comissão organizadora do colóquio “O Legado Cultural e Político de Mário Pinto de Andrade”, destacou a relevância do pan-africanista angolano. Jaló descreveu Mário Pinto de Andrade como uma figura que “desde cedo se demonstrou não agarrado ao poder”, enfatizando a sua dedicação ao serviço dos movimentos de libertação. “Ele via a cultura como uma intersecção com a política”, afirmou, ressaltando que não considerava as dinâmicas culturais como separadas da mobilização política.
O colóquio tem como objetivo resgatar a memória de uma figura que, frequentemente, é “secundarizada e até esquecida”. O legado de Mário Pinto de Andrade é considerado fundamental para lidar com os resquícios do colonialismo e do racismo estrutural nas sociedades contemporâneas. O evento visa promover a consciencialização sobre a importância de figuras históricas que emergem de contextos de opressão para construir sociedades mais justas.
Rita Ié, diretora da CCGB, acredita que discutir Mário Pinto de Andrade é extremamente pertinente, especialmente face às “situações bastante difíceis” que os PALOP enfrentam. “Enquanto os nossos países, como a Guiné-Bissau, continuarem a passar por crises políticas e sociais, a voz do povo não será ouvida, e precisamos de voltar a estes pensadores”, afirmou. Ela sublinhou que personalidades pan-africanas, como Mário Pinto de Andrade e Amílcar Cabral, ajudaram o povo a imaginar um futuro diferente.
A diretora defendeu a necessidade de despertar a juventude para o “trabalho árduo e sacrifícios”, apontando que este é o único caminho para o desenvolvimento dos países africanos. O objetivo é garantir que as nações do continente conquistem valor próprio e o direito de se sentarem à mesa de negociações internacionais em pé de igualdade com outras sociedades.
Rita Ié apelou ainda a uma mudança de paradigma, enfatizando a importância de “olhar de dentro para fora”. Para ela, é crucial adaptar o conhecimento global à realidade de cada país, permitindo que as economias locais atinjam o nível das grandes potências mundiais.
O colóquio “O Legado Cultural e Político de Mário Pinto de Andrade” decorrerá em Lisboa nos dias 25, 28, 29 e 30 de maio, e incluirá encontros, conferências, uma exposição arquivística, sessões culturais e cinema, todos centrados no pensamento deste importante anticolonialista africano. Mário Pinto de Andrade, que faleceu em Londres em 1990, foi um dos cofundadores do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA) e dedicou a sua vida à luta contra o colonialismo e o neo-colonialismo em África.
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Fonte: Sapo





