A sustentabilidade na mobilidade tem sido um tema em destaque, especialmente no contexto da transição energética. O automóvel, símbolo de progresso, tornou-se um foco de debate, onde a narrativa predominante sugere que a substituição de veículos a combustão por elétricos é sempre a solução mais sustentável. Mas será realmente assim?
A resposta é complexa e depende de vários fatores. A sustentabilidade não deve ser vista de forma isolada, nem reduzida a um único momento da vida de um produto. Um automóvel não começa a impactar o ambiente apenas quando entra em circulação; o seu ciclo de vida começa muito antes, desde a extração de matérias-primas até à produção e logística que o coloca no mercado. Aqui, a análise de ciclo de vida torna-se crucial.
De acordo com a Agência Europeia do Ambiente, uma parte significativa da pegada de carbono de um veículo elétrico está relacionada com a sua produção, especialmente a bateria, cuja fabricação exige muitos recursos e energia. Embora os veículos elétricos apresentem vantagens ambientais durante a sua utilização, especialmente em áreas urbanas e com elevada quilometragem, é necessário considerar uma visão mais abrangente.
Por exemplo, pensemos num cidadão que possui um automóvel a gasolina com 15 anos, em boas condições, e que percorre menos de 10.000 quilómetros por ano. Será que substituir este veículo por um elétrico novo é a opção mais sustentável? A resposta pode surpreender: não necessariamente.
A baixa utilização do automóvel a gasolina resulta em emissões anuais reduzidas. Por outro lado, a compra de um novo veículo implica uma pegada ambiental significativa devido à sua produção. Em muitos casos, pode levar vários anos para que o novo automóvel compense, em termos de emissões, o impacto do seu fabrico.
É aqui que a economia circular deve ser central no debate sobre a sustentabilidade na mobilidade. Prolongar a vida útil de um veículo, garantir a sua manutenção e evitar substituições prematuras são princípios fundamentais. A Comissão Europeia reconhece a economia circular como um pilar estratégico da transição climática, mas muitas políticas públicas ainda favorecem a substituição em vez da utilização prolongada.
Este paradoxo levanta uma questão importante: estamos realmente a reduzir emissões ou apenas a adiá-las? Não se deve desvalorizar o papel dos veículos elétricos na mobilidade futura. Eles serão essenciais, especialmente em contextos de utilização intensiva e na mobilidade urbana. Contudo, assumir que esta é a única solução para todos os casos ignora a diversidade de realidades e necessidades.
O futuro da mobilidade não será uniforme; será construído a várias velocidades, com diferentes tecnologias a coexistirem. Mais do que escolher “o carro certo”, é crucial encontrar a solução adequada para cada contexto.
Em última análise, a verdadeira sustentabilidade na mobilidade não se mede apenas pelo que substituímos, mas muitas vezes pelo que conseguimos preservar de forma inteligente. Num mundo onde proliferam soluções simplistas para problemas complexos, o nosso maior contributo pode ser a introdução de nuance e rigor nas nossas escolhas. A sustentabilidade deve ser uma decisão informada e responsável.
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Fonte: Sapo





