Portugal enfrenta um desafio significativo na valorização do seu talento na saúde, segundo Maria de Belém Roseira. A ex-ministra da Saúde sublinha que o país ainda não reconhece plenamente a sua capacidade científica e tecnológica, mantendo um padrão de procura de validação externa que prejudica o ecossistema interno de inovação. “Temos muito talento em Portugal que não nos damos ao trabalho de apreciar”, afirmou Roseira, destacando que frequentemente se busca o que se faz no exterior, mesmo quando as soluções internas são mais avançadas.
A antiga governante, que liderou a pasta da Saúde entre 1995 e 1999, defende que é crucial “potenciar e escalar os nossos recursos internos”. Essa abordagem não só reforçaria a capacidade produtiva do país, mas também melhoraria a autoestima coletiva. “Se não acreditarmos em nós, ninguém acreditará”, acrescentou, referindo que o reconhecimento internacional do talento na saúde em Portugal contrasta com a sua subvalorização interna.
Durante a sua intervenção, Maria de Belém Roseira também abordou a crescente importância da tecnologia no setor da saúde, especialmente no que diz respeito às ferramentas baseadas em inteligência artificial. No entanto, enfatizou que estas devem ser vistas como instrumentos de apoio e não como substitutos da decisão clínica. “Esta ferramenta da UpHill Health pode ajudar o sistema de saúde, mas não substitui a decisão médica”, explicou, referindo que a tecnologia deve servir para ampliar a visão dos profissionais de saúde.
A ex-ministra recordou ainda experiências de inovação no Serviço Nacional de Saúde, como sistemas de triagem telefónica que reduziram a pressão sobre as urgências pediátricas. Estas iniciativas, que utilizam algoritmos e encaminhamentos orientados por profissionais, demonstram que a inovação pode gerar ganhos significativos de eficiência. Contudo, Roseira alertou para as resistências institucionais e legais que frequentemente surgem. “Foi uma pedrada no charco, mas muito difícil de montar”, disse, mencionando barreiras como a burocracia e a falta de mecanismos de avaliação consistentes.
Além disso, Maria de Belém Roseira criticou a forma como o sistema público avalia políticas e projetos-piloto, defendendo que Portugal precisa de melhorar a sua capacidade de análise e decisão baseada em evidência. “Tomamos más decisões porque não somos capazes de avaliar aquilo que realmente funciona e deve ser alargado”, concluiu.
As declarações de Maria de Belém Roseira foram feitas durante um debate sobre inovação em saúde digital e inteligência artificial, que teve lugar no Summit International da UpHill Health, em Lisboa. Leia também: Inovação na saúde: desafios e oportunidades em Portugal.
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Fonte: Sapo





