O governo de Javier Milei, presidente da Argentina, anunciou a extinção do turismo social, uma prática que permitia a trabalhadores argentinos usufruírem de férias em hotéis a preços acessíveis. O complexo de Chapadmalal, que oferecia diárias a cerca de 10 dólares, será privatizado, marcando o fim de uma era ligada ao peronismo.
Construído na década de 1940 durante o governo de Juan Domingo Perón e Eva Perón, Chapadmalal era um símbolo do direito ao lazer para os trabalhadores. Os hóspedes podiam desfrutar de uma semana de férias, com todas as refeições incluídas, por valores que chegavam a apenas 3 ou 4 dólares por noite. Este espaço era um refúgio para muitos, onde até cinco mil pessoas podiam relaxar à beira-mar, dançar e conviver em festas animadas.
Cintia Suárez, funcionária do complexo há 20 anos, expressou a importância cultural do turismo social, afirmando que “não se pode subestimar o valor de ter direito ao tempo de lazer”. Contudo, a visão do governo Milei é de que o turismo social estatal não se alinha com a sua agenda de livre mercado, considerando-o uma carga financeira desnecessária.
Desde que Milei assumiu a presidência, o complexo de Chapadmalal permaneceu fechado durante a última temporada. Em março, foi anunciada uma licitação para a concessão privada do local, que não pode ser vendido devido a restrições históricas. O governo argumenta que a privatização permitirá um aumento no valor turístico da região.
Os críticos da decisão, incluindo antigos funcionários e sindicalistas, alertam que a privatização pode afastar o acesso dos trabalhadores a essas instalações. Manuel Diez, um ex-funcionário do complexo, afirmou que a mudança representa uma desigualdade crescente na sociedade argentina. “Agora temos um país onde apenas algumas pessoas conseguem viver bem”, lamentou.
A divisão política na Argentina é evidente, com um terço da população ainda a identificar-se como peronista. No entanto, o movimento enfrenta dificuldades para se reorganizar após a derrota nas eleições de 2023. A popularidade de Milei tem vindo a cair, à medida que a austeridade e a redução de empregos começam a afetar a qualidade de vida dos argentinos.
Chapadmalal, situado a 30 km de Mar del Plata, é um vasto complexo que inclui várias comodidades, como restaurantes e teatros. Muitos argentinos, especialmente os de regiões mais pobres, viam o mar pela primeira vez durante as suas estadias. A privatização levanta preocupações sobre o futuro do turismo social e a acessibilidade para as famílias de classe baixa.
Enquanto isso, o governo peronista da província de Buenos Aires solicitou a administração dos hotéis, mas não obteve resposta. A secretária provincial de Turismo, Sole Martínez, criticou a privatização, alegando que interesses empresariais estão a influenciar a decisão.
Os frequentadores de Chapadmalal, como o artista de rua Gustavo Casais, temem que a privatização torne os preços inacessíveis. “Chapadmalal tem que ser para o povo”, afirmou, refletindo a preocupação de muitos argentinos sobre o futuro do turismo social no país.
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Fonte: Sapo





