Nos últimos anos, Portugal tem assistido a um aumento significativo do número de mulheres a trabalhar nas Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC). Desde 2019, o número de especialistas femininas nesta área saltou de 31 mil para 63 mil, colocando o país como o oitavo da União Europeia em termos de proporção de mulheres empregadas, com 22,3% em 2025. Este valor é o segundo melhor da última década, apenas atrás dos 22,7% registados em 2024. No entanto, a situação das mulheres nas TIC não é tão linear quanto parece.
De acordo com dados do Eurostat, a proporção de mulheres com licenciatura na área das TIC está em queda. Apesar de ter havido um aumento no número de diplomadas desde 2022, que passou de 7,7 mil para 11,9 mil, este número ainda está abaixo dos 12,7 mil de 2021 e muito distante do pico de 16,3 mil registado em 2007. Atualmente, Portugal ocupa o penúltimo lugar na Europa, com apenas 12,6% de mulheres diplomadas em TIC, superando apenas a Lituânia.
Embora a evolução do número de mulheres nas TIC seja encorajadora, a realidade nas universidades revela uma situação preocupante. Dados da Escola de Tecnologias Digitais Aplicadas do ISCTE-Sintra indicam que a proporção de mulheres em cursos de engenharia informática tem variado entre 15% e 19% nos últimos três anos. Cláudia Mendes, da Women in Tech Portugal, alerta que o número clausus para estas áreas é inferior ao de outros cursos, como o Direito, o que dificulta a atração de mais mulheres.
Por outro lado, existem sinais positivos em algumas instituições. Na mesma escola, cursos como Tecnologias Digitais Educativas e Matemática Aplicada apresentam uma maioria feminina, com 61% e 59% de alunas, respetivamente. Esta diferença pode ser atribuída à forma como a escola valoriza a ligação das tecnologias à sociedade, atraindo assim mais mulheres para áreas que promovem um impacto social positivo.
A Siemens, através do seu Portugal Tech Hub, tem também investido na promoção do interesse feminino nas áreas tecnológicas. Carolina Raposo, responsável de recursos humanos, destaca a importância de despertar esse interesse desde cedo, implementando programas que visam atrair talento feminino para as TIC. A empresa tem como objetivo alcançar mais de 200 mil alunos entre os 6 e os 12 anos, focando-se em áreas como inteligência artificial e cibersegurança.
Apesar dos avanços, a sociedade patriarcal ainda influencia a escolha de cursos por parte das mulheres. Cláudia Mendes sublinha que muitas jovens são encorajadas a seguir áreas consideradas mais prestigiadas, como a medicina, em vez de se aventurarem nas TIC. Esta pressão social pode levar a uma sub-representação feminina nas áreas tecnológicas.
Embora o número de mulheres nas TIC ainda esteja aquém do desejado, o mercado de trabalho em Portugal apresenta oportunidades. Joana Martinho Costa, do ISCTE, afirma que há uma grande procura por profissionais qualificados, o que pode compensar a disparidade de género existente. Muitas mulheres têm recorrido a formações paralelas para se reclassificarem e ingressarem na área tecnológica, aproveitando as novas oportunidades que surgem.
A mudança de mentalidade é essencial para aumentar a presença feminina nas TIC. Ana Pires, cientista-astronauta, destaca que muitas mulheres sentem a necessidade de formação adicional, o que pode levar à desmotivação. É fundamental inspirar as jovens a perseguirem carreiras nas tecnologias sem medo, mostrando que estão preparadas para enfrentar os desafios do setor.
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Fonte: Sapo





