Silêncio e Meditação: A Transformação em Retiro na Índia

Durante uma longa viagem pela Índia, há um momento em que a jornada pede uma pausa. Essa pausa pode ser um retiro de meditação Vipassana, que dura dez dias nas encostas do vale de Katmandu. Neste espaço, aceitamos o nobre silêncio: dez dias sem falar, sem comunicar, sem ler ou escrever. O foco é estar connosco próprios. Em cada um desses dias, dedicamo-nos a mais de dez horas de meditação, começando por acompanhar a respiração e, posteriormente, a observar as sensações que percorrem o corpo.

Neste retiro de meditação, aprendemos a não reagir de imediato. Criamos um intervalo entre o que nos acontece e a nossa resposta. Confiamos na impermanência das experiências, sejam elas desconfortáveis ou agradáveis. É um processo de desapego, onde incorporamos as sensações e, ao mesmo tempo, deixamo-las partir.

Após alguns dias, sem estímulos externos, o espírito começa a explorar o fundo da mente. Recordações antigas, alegrias, perdas e pequenos conflitos emergem, revelando-se como sensações que, embora já não voltem, ainda deixam marcas no corpo. Cada vedanā, a palavra em pali para sensação, é recebida com a mesma atenção que uma dor nas costas ou uma sensação agradável. Observamo-las, permitimo-las existir e, finalmente, deixamo-las ir. Assim, um retiro de meditação torna-se uma recapitulação da vida, onde o que ainda nos aflige encontra espaço para emergir.

Num mundo onde tudo parece reativo, criar esse intervalo entre o que acontece e a nossa resposta é uma prática extremamente benéfica. Um não fazer que, paradoxalmente, resulta em muito.

Após o meu regresso a Portugal, participei em um segundo retiro. As regras eram idênticas: dez dias, votos de silêncio, o mesmo horário e a mesma prática. Contudo, havia uma diferença subtil. Cada canto sonoro, cada cheiro húmido e quente, evocava agora as memórias da esteva alentejana, a azáfama das andorinhas e a luz suave que conhecemos tão bem. Não senti que estava a repetir o retiro; era o mesmo silêncio a falar uma nova língua. A experiência deixava-se traduzir pela linguagem da paisagem.

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Essa tradução sensorial, composta por aromas, sabores, luz, brisa e a textura do ar, fez-me perceber que tudo pertence profundamente ao seu lugar, mas ainda assim comunica uma experiência comum. É isso que se retira de uma viagem que permite tempo para reflexão. Após todas as paisagens, o corpo aprende a reconhecer, em cada uma, o que significa estar verdadeiramente vivo.

Leia também: A importância do silêncio na meditação e no dia a dia.

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Fonte: Sapo

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