Transição energética em Portugal: dinheiro disponível, mas falta investimento

As empresas em Portugal dispõem de cerca de 40 mil milhões de euros em fundos europeus e nacionais, destinados a apoiar a recuperação económica após a pandemia até 2029. Contudo, a utilização eficaz deste financiamento, especialmente para a transição energética, continua a ser um desafio significativo. Filipe Morais de Vasconcelos, membro executivo da The Equator Company, revela que cerca de nove mil milhões de euros estão alocados especificamente para a transição climática e energética, mas uma grande parte deste montante ainda não foi utilizado.

O contexto é crítico, uma vez que o Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) entra na sua fase final em 2026, com marcos importantes a serem atingidos até 31 de agosto. O programa Portugal 2030 prevê 220 avisos que mobilizam 3,9 mil milhões de euros, mas muitos destes avisos estão atrasados, sobrepondo-se ao PRR.

Um estudo recente da RAISE-PT, coordenado pela The Equator Company, confirma que a transição energética é vista como prioritária por mais de 80% das entidades inquiridas. No entanto, apenas 69% realizaram investimentos efetivos nos últimos três anos, evidenciando um desfasamento entre a intenção e a execução. Este problema é especialmente visível entre microempresas e organizações sem fins lucrativos, onde 52% das entidades que não investiram são microempresas.

Os dados mostram que muitos projetos de transição energética têm dimensões reduzidas, frequentemente abaixo dos 50 mil euros, enquanto o investimento médio em PME ronda os 100 mil euros. Assim, o problema não reside na dimensão do investimento, mas sim no acesso aos mecanismos de financiamento. A maioria das entidades tem investido em projetos internos, com apenas 15% a colaborar em iniciativas conjuntas, o que limita o potencial de inovação e impacto.

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O financiamento é predominantemente baseado em capital próprio, utilizado por 81% das entidades, mas muitos desconhecem ou não utilizam alternativas como modelos ESCO ou crowdfunding. A burocracia é apontada como um dos principais obstáculos ao financiamento, com 64% das empresas a referirem a complexidade do processo e 51% a queixarem-se dos longos tempos de aprovação.

Filipe Morais de Vasconcelos critica a abordagem do Estado, afirmando que a burocracia e a falta de confiança penalizam as PME. Ele destaca que o custo de aceder a estes fundos é elevado em comparação com os benefícios que oferecem, e que a falta de uma estratégia coerente para o setor energético tem dificultado a atração de investimento.

Apesar das dificuldades, o interesse das empresas na descarbonização é evidente. Elas querem investir, inovar e modernizar, mas carecem de informação sobre os instrumentos disponíveis. Filipa Pantaleão, Secretária-Geral do BCSD Portugal, salienta a importância da colaboração, enquanto Ana Tapadinhas, Diretora-Geral da DECO, destaca a necessidade de colocar os consumidores no centro da transição.

O estudo também revela uma mudança nas prioridades de investimento, com um foco crescente em tecnologias emergentes como armazenamento de energia e digitalização. À medida que a pressão regulatória aumenta, o diagnóstico é claro: o problema não é a falta de dinheiro, mas a incapacidade do sistema em convertê-lo em investimento eficaz. Para desbloquear a transição energética em Portugal, é essencial simplificar a burocracia, adaptar os instrumentos financeiros e reforçar a literacia financeira. Sem essas mudanças, o risco de baixa execução dos fundos e atrasos na descarbonização permanece elevado.

Leia também: O impacto da transição energética nas PME em Portugal.

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Fonte: Sapo

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