A sucessão empresarial é um tema que, embora frequentemente associado a grandes empresas, também se revela crucial para as pequenas e médias empresas em Portugal. Recentemente, a Bloomberg destacou que os fundos de private equity estão a adquirir empresas familiares à medida que os fundadores envelhecem. Contudo, essa realidade representa apenas uma parte da história. A maioria dos empresários portugueses nunca receberá uma proposta de um fundo de investimento, e, se nada mudar, muitas empresas poderão fechar as suas portas.
De acordo com dados da PwC, as empresas familiares constituem entre 70% e 80% do tecido empresarial português, empregando cerca de metade da força de trabalho e contribuindo com cerca de 65% para o PIB. No entanto, apenas uma pequena fração dessas empresas tem a dimensão necessária para atrair a atenção de um fundo de private equity, que procura negócios com escalas significativas e equipas de gestão já estabelecidas.
As pequenas empresas, como uma oficina com quinze trabalhadores ou uma fábrica de componentes numa aldeia, raramente recebem propostas de compra. Este é um problema sério, pois enquanto as grandes empresas sem sucessor podem encontrar compradores, as pequenas frequentemente não têm essa sorte. Muitas vezes, o que resta é um concorrente disposto a absorver os clientes, mas que acaba por liquidar o restante, levando à perda de know-how, postos de trabalho e décadas de reputação.
É essencial que os empresários que se aproximam da idade da reforma comecem a pensar na sua sucessão. Adiar essa decisão é arriscar o património acumulado ao longo de uma vida. Quando a venda é forçada, o vendedor pode acabar por receber menos do que o real valor da empresa. Assim, quem não se prepara para a sucessão empresarial não está a proteger o seu legado, mas sim a garantir que o seu negócio vale menos no momento da venda.
A solução para o dilema da sucessão empresarial não se resolve por si só. É necessário olhar para o lado da procura. Existem, em Portugal, dois tipos de compradores que podem preencher este vazio. O primeiro é o empresário que já gere um negócio e procura crescer através da aquisição de empresas com clientes e operações já estabelecidas. O segundo é o profissional que, após anos numa carreira corporativa, deseja liberdade e vê na compra de uma micro ou pequena empresa uma forma de alcançar a independência financeira, evitando os riscos associados ao início de um novo negócio.
Para que estas transações ocorram, é fundamental que haja um intermediário que organize o encontro entre vendedores e compradores. Durante muito tempo, esse trabalho foi escasso no segmento das micro e pequenas empresas, mas a situação está a mudar. O mercado começa a profissionalizar-se, com a emergência de plataformas e intermediários especializados que ligam quem deseja vender a quem quer comprar, garantindo rigor na avaliação e na estruturação contratual.
É crucial que fundadores, empresários e profissionais utilizem estes mecanismos, em vez de realizarem transações informais que não protegem ambas as partes. A geração que construiu o tecido empresarial português está a chegar ao fim do seu ciclo. No topo, já existem compradores, mas na base, o comprador ainda não está organizado como uma categoria. No entanto, este novo perfil de comprador tem mais capacidade de gestão e apetite pelo risco do que qualquer geração anterior.
Adiar a decisão de comprar ou de vender não é uma forma de ganhar tempo. É uma oportunidade valiosa que se perde, especialmente no momento em que ainda é possível negociar e transformar uma microempresa na grande empresa de amanhã. A sucessão empresarial deve ser encarada como uma oportunidade, não como um problema.
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Fonte: Sapo





