Portugal tem uma longa tradição de brandos costumes, onde a sabedoria popular frequentemente coloca a competência acima da integridade. O famoso ditado “rouba, mas faz!” tem sido aplicado a muitos políticos, especialmente ao nível local, refletindo uma realidade em que a incompetência e a falta de ética coexistem em várias esferas do poder. A população parece ter-se habituado a este trade-off, onde a capacidade de execução é valorizada em detrimento da ética e da legalidade.
Recentemente, surgiu uma nova expressão que pode ser resumida em “faz mal, mas tenta”. Esta mudança de paradigma é visível nas reações à polémica em torno dos exames nacionais, onde se tenta justificar a atuação do ministro da Educação como uma inovação digna de aplauso, independentemente das falhas. A ética parece ter sido recuperada, mas apenas no que toca às intenções, relegando a competência para um segundo plano.
Os argumentos a favor do ministro têm sido variados, mas muitos chegam a ser absurdos. Há quem defenda que a digitalização do processo de classificação — que nem é uma digitalização verdadeira — constitui uma reforma estrutural do sistema educativo, e que críticas a essa abordagem são injustas. Além disso, a resistência à mudança tem sido apresentada como um obstáculo a ser superado, ignorando o facto de que mudanças em larga escala, especialmente as que envolvem tecnologia, geram sempre resistência.
Portugal continua a mostrar-se avesso à mudança, e a cultura de melhoria contínua nas instituições públicas é ainda muito frágil. O ministro, ao reestruturar o seu ministério, deveria ter colocado pessoas de confiança em posições-chave para liderar este processo de forma mais rigorosa. A iniciativa precisava de ser testada através de ciclos de experimentação que garantissem a sua eficácia antes de ser implementada em larga escala, especialmente num processo tão crítico como o dos exames nacionais.
É importante encorajar a tentativa e a aprendizagem com os erros, mas o Ministério da Educação não é uma startup onde os riscos são baixos. As consequências de falhas podem ser severas para alunos, professores, pais e até para os próprios responsáveis políticos.
Para aqueles que acreditam que a situação se deve a uma sabotagem, proponho uma reflexão: a criação de uma Administração Pública profissional e independente dos partidos. Este modelo, semelhante ao Civil Service britânico, poderia aconselhar o ministro sobre a melhor forma de implementar as políticas escolhidas pelos eleitores, garantindo rigor, continuidade e responsabilização.
Não podemos continuar a viver num país onde se aceita que se pode “roubar desde que se faça” e “fazer mal desde que a intenção seja boa”. A cultura política em Portugal precisa de uma mudança significativa para que a ética e a competência sejam igualmente valorizadas.
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Fonte: Sapo





