O setor segurador em Portugal enfrenta um dilema que pode ser tanto confortável quanto perigoso: a inércia dos clientes. Esta prática, que se perpetua por falta de mudança, pode levar a consequências negativas para aqueles que permanecem fiéis às suas seguradoras. Um fenómeno conhecido como “segmentação temporal do prémio baseada na inércia do tomador” está a ganhar destaque, revelando como os prémios de seguro são influenciados não apenas pelo risco atual, mas também pelo comportamento de renovação dos segurados ao longo do tempo.
A segmentação temporal do prémio baseada na inércia do tomador penaliza os clientes que renovam as suas apólices, ao mesmo tempo que oferece condições mais vantajosas a novos clientes. Este padrão de pricing, que pode parecer vantajoso para as seguradoras no curto prazo, levanta questões éticas e reputacionais. No Reino Unido, já foram implementadas restrições a estas práticas, mas em Portugal, a situação ainda é incerta, com a Autoridade de Supervisão de Seguros e Fundos de Pensões a manter uma postura cautelosa.
As seguradoras têm à sua disposição modelos de risco mais sofisticados, que permitem um pricing mais justo e eficiente. No entanto, a mudança para um sistema que abandone a segmentação temporal do prémio baseada na inércia do tomador pode ser vista como uma abdicação de uma fonte de receita. Assim, a resistência à mudança persiste, mesmo quando a capacidade analítica já existe.
Os intermediários de seguros também enfrentam um desafio, pois a assimetria de informação continua a ser um ativo valioso, mas cada vez mais vulnerável. O regulador, por sua vez, tende a adotar uma abordagem prudente, aguardando evidências que justifiquem uma ação.
É crucial perceber que a inércia no setor segurador não deve ser vista apenas como uma distorção comercial, mas como um teste à reputação do setor. Com o aumento da informação e da mobilidade dos consumidores, especialmente entre as gerações mais jovens, a aceitação de variações de prémio sem uma justificação clara está a diminuir. O que hoje é uma fricção silenciosa pode rapidamente transformar-se em churn visível, causando danos reputacionais significativos.
O setor segurador encontra-se num ponto crítico da sua evolução. Embora tenha a capacidade analítica para abandonar práticas obsoletas, falta-lhe a coragem estratégica para o fazer. A verdadeira questão não é apenas de conhecimento, mas de coragem para antecipar a regulação e alinhar o pricing com uma justiça percebida pelos clientes.
A indústria seguradora construiu a sua reputação na gestão de riscos, mas talvez seja hora de incluir o risco reputacional na equação. Os clientes, afinal, são os que sustentam todo o sistema. A mudança é necessária, e a coragem para agir deve vir antes que a pressão externa obrigue o setor a fazê-lo.
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Fonte: ECO





