Entre 2011 e 2015, Portugal enfrentou uma significativa emigração de profissionais qualificados, um fenómeno que teve impactos diretos e consequências mais subtis que começam a ser visíveis. Muitos destes jovens, que na altura estavam na casa dos 20 e 30 anos, deixaram o país não por escolha, mas por necessidade, numa época marcada por uma grave crise económica.
A saída em massa foi analisada sob diversas perspetivas, incluindo o impacto social, a separação de famílias e a resiliência dos que partiram. Contudo, um aspecto que não foi devidamente antecipado foi o efeito que esta migração teria na formação das lideranças atuais. Hoje, a expressão “escassez de talento” tornou-se comum no mundo corporativo, e é inegável que parte deste fenómeno se origina nesse período de emigração.
Os profissionais que deixaram Portugal não desapareceram; pelo contrário, construíram carreiras sólidas e ganharam experiência em contextos internacionais. Muitos deles ascenderam a posições de destaque, desenvolvendo-se em ambientes mais exigentes e próximos dos centros de decisão. No entanto, esse capital humano não foi absorvido pelo mercado nacional. Em 2026, uma parte significativa desta geração estaria em posições de liderança, mas a sua ausência está a criar uma descontinuidade geracional cada vez mais evidente.
Atualmente, o mercado enfrenta uma crescente escassez de perfis qualificados para funções de direção, especialmente entre os 35 e os 45 anos. Esta situação não resulta da falta de talento em Portugal, mas sim do facto de muitos destes profissionais terem construído as suas carreiras fora do país e não terem regressado. É crucial que as empresas adotem processos mais rigorosos de identificação e avaliação de talento, conscientes das lacunas existentes no mercado de trabalho.
As consequências desta escassez já se fazem sentir nas empresas. Os processos de recrutamento tornaram-se mais longos e a dificuldade em assegurar sucessões internas aumentou. As organizações estão cada vez mais dependentes de perfis internacionais ou da promoção acelerada de profissionais que ainda estão em fase de consolidação. Curiosamente, esta escassez está a mudar a forma como o mercado valoriza a experiência, com uma maior abertura à contratação de profissionais mais experientes, numa resposta ao vazio existente.
O impacto da emigração não se limita ao passado; é uma realidade que se reflete nas lacunas que o mercado não pode ignorar. A geração que partiu não desapareceu; seguiu o seu caminho e deixou um vazio que Portugal ainda está a tentar preencher.
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Fonte: Sapo





