A transição energética rumo à descarbonização não é apenas uma mudança de fontes de energia, mas também uma transformação material. As tecnologias limpas, como painéis solares, baterias e veículos elétricos, dependem fortemente de cadeias de abastecimento que utilizam minerais e metais, muitos dos quais são classificados como críticos ou estratégicos.
Segundo o relatório de 2025 da Agência Internacional de Energia sobre materiais críticos, a procura por estes recursos continua a aumentar, impulsionada principalmente pelas necessidades das tecnologias energéticas. Para 2040, com as políticas atualmente em vigor, prevê-se que a demanda por lítio cresça até 4,7 vezes em comparação com 2024, enquanto a procura por níquel deverá aumentar 1,7 vezes. Neste contexto, as tecnologias energéticas serão responsáveis por 86% do uso total de lítio e 42% do uso total de níquel. Contudo, essa dependência levanta preocupações, especialmente considerando que os principais fornecedores estão concentrados em países como China, Indonésia e República Democrática do Congo, onde a estabilidade política pode ser uma questão.
Em 2024, o Conselho Europeu adotou o Regulamento sobre Matérias-Primas Críticas (MPC), estabelecendo metas de autossuficiência na União Europeia até 2030. O objetivo é alcançar 10% de extração, 40% de transformação e 25% de reciclagem. Portugal foi identificado com quatro projetos estratégicos de MPC, três dos quais localizados no Norte, focados na extração de lítio, e um no Sul, dedicado à extração e processamento de cobre.
Um dos projetos em destaque é a mina na zona do Barroso, uma região descrita por Miguel Torga como o “Reino Maravilhoso” e reconhecida pela FAO como um sistema agrícola de importância global. O projeto passou por uma revisão significativa para atender a preocupações ambientais, incluindo um modelo hídrico que prioriza a reutilização de água e a redução da captação e descargas, além de um sistema de deposição de rejeitados.
A gestão das relações com as comunidades locais é fundamental para a sustentabilidade dos projetos de mineração. Em 2025, a Convenção de Aarhus das Nações Unidas considerou que o Estado português falhou em garantir a participação dos cidadãos no projeto da Mina do Barroso. Em áreas com um histórico de exploração mineira, como a mina Borralha, é crucial que os processos de consulta pública sejam realizados de forma transparente e cuidadosa, especialmente quando as comunidades percebem assimetrias entre os custos locais e os benefícios externos.
A banca também tem evoluído no financiamento sustentável de projetos mineiros. Desde 2003, o IFC lançou os Princípios do Equador, que estabelecem diretrizes socioambientais para o financiamento, permitindo que os bancos apoiem projetos de mineração sustentáveis, excluindo aqueles que apresentam riscos ambientais e sociais inaceitáveis.
A questão que se coloca é se os materiais críticos estão a ser utilizados para transformar o sistema ou apenas para perpetuar um modelo de consumo que nos trouxe até aqui. É imperativo alcançar um modelo energético que seja menos intensivo em materiais, menos dependente da extração e mais alinhado com os limites do planeta. A sobriedade material implica desenvolver tecnologias que sejam conscientes e duráveis, passíveis de reparação e reutilização. Embora os projetos de MPC possam compensar a redução da extração de combustíveis fósseis, devemos questionar se a transição energética deve sacrificar áreas que prestam serviços naturais essenciais. Qual é o “preço” que estamos dispostos a pagar por esta mudança?
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Fonte: ECO





