A discussão em torno da Inteligência Artificial (IA) nas áreas de contabilidade, auditoria e gestão já não é uma mera curiosidade tecnológica. A questão que se coloca agora é: estará Portugal a preparar os seus profissionais para trabalhar com esta tecnologia, ou arrisca-se a ficar para trás?
Durante anos, muitas das tarefas nestas áreas basearam-se em processos repetitivos, como o lançamento de documentos e a reconciliação de dados. Com a chegada da IA, a automação destas rotinas foi acelerada, permitindo que tarefas que antes consumiam horas sejam agora realizadas em minutos. Este avanço não implica o desaparecimento de contabilistas, auditores ou gestores, mas sim uma transformação nas suas funções. O contabilista do futuro deverá ser um intérprete da informação económica e financeira, ajudando as empresas a tomar decisões mais informadas e a antecipar riscos.
A auditoria também se beneficiará da análise de grandes volumes de dados, permitindo identificar anomalias e reforçar a qualidade do trabalho. Contudo, a tecnologia não substitui o julgamento profissional, a ética e a capacidade de questionar resultados. O verdadeiro desafio para Portugal reside na forma como a IA é encarada. Se for vista apenas como uma ameaça, o país poderá perder competitividade e qualidade nos serviços profissionais.
As empresas que souberem integrar a IA nas suas operações terão uma vantagem significativa em termos de velocidade e capacidade analítica. Por outro lado, aquelas que não o fizerem continuarão a depender de modelos de trabalho manuais, o que resulta em profissionais sobrecarregados e com menos tempo para pensar estrategicamente. Assim, a requalificação profissional deve ser uma prioridade.
As Instituições de Ensino Superior têm um papel crucial neste processo. Não basta apenas adquirir software ou incluir unidades curriculares com a designação “IA”. É fundamental atualizar o ensino superior e a formação contínua, reforçando competências em áreas como análise de dados e ética da IA. O objetivo não é transformar todos os profissionais em especialistas em tecnologia, mas sim garantir que saibam interagir com ela e compreender os seus resultados.
Além disso, é essencial fortalecer a ligação entre academia e mercado. Os estudantes devem ter acesso a ferramentas e problemas reais, enquanto os profissionais em atividade precisam de formação prática e flexível. As organizações devem reconhecer que a transformação digital é uma mudança cultural e não apenas uma questão técnica.
A Inteligência Artificial pode aumentar a eficiência e o valor das profissões, mas isso só será possível com uma visão clara. O verdadeiro risco não reside na capacidade da máquina de executar tarefas, mas sim na formação de pessoas para funções que a tecnologia já desempenha. O valor humano está na interpretação, responsabilidade e tomada de decisão. Portugal ainda tem tempo para se adaptar, mas não pode demorar muito mais.
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Fonte: Sapo





