O custo invisível da produtividade no mercado de trabalho

A valorização do salário mínimo nacional é um dos avanços sociais mais significativos das últimas décadas em Portugal. Num país onde, durante muito tempo, o trabalho não garantia proteção contra a pobreza, esta evolução deve ser vista como um sinal positivo. No entanto, focar o debate apenas na evolução do salário mínimo pode obscurecer uma transformação mais profunda no mercado de trabalho.

Nos últimos anos, a organização do trabalho sofreu alterações drásticas. A digitalização acelerou processos, as empresas tornaram-se mais ágeis, as equipas diminuíram em número e a disponibilidade constante passou de exceção a norma. Hoje, exige-se maior rapidez, flexibilidade e capacidade de adaptação, com níveis de produtividade que seriam impensáveis há alguns anos.

Contudo, a valorização do trabalho não tem acompanhado, em muitos casos, esta intensificação das exigências. Como médica do trabalho e gestora de serviços de saúde, observo diariamente trabalhadores de diversas áreas e níveis de qualificação. Apesar das diferentes funções, muitos partilham um padrão comum: aumento da carga de trabalho, dificuldade em desligar-se do trabalho, perda de tempo para a vida pessoal, pressão para cumprir metas e uma crescente sensação de desgaste.

É interessante notar que estas preocupações raramente começam pelo salário. O foco inicial é, muitas vezes, o cansaço. Este fato merece reflexão, pois o salário, por si só, não explica o sofrimento relacionado com o trabalho. No entanto, a remuneração é uma das formas mais objetivas de reconhecimento social do valor do trabalho realizado. Quando as exigências aumentam continuamente e o reconhecimento permanece praticamente inalterado, cria-se um desequilíbrio que a Medicina do Trabalho reconhece bem.

Estudos têm mostrado que o desfasamento persistente entre as exigências do trabalho e os recursos disponíveis, sejam eles financeiros, organizacionais ou relacionais, é um fator de risco psicossocial significativo. A exaustão emocional, a ansiedade, a perda de motivação, o presentismo, o absentismo e a rotatividade não surgem por acaso. Muitas vezes, são reflexo de organizações que exigem cada vez mais sem oferecer condições que tornem esse esforço sustentável.

Leia também  Waller teve entrevista positiva para presidente da Fed

Por isso, é fundamental considerar a saúde dos trabalhadores como um verdadeiro indicador económico. As consultas de Saúde do Trabalho funcionam como um observatório das mudanças no mercado laboral. Antes que as alterações se reflitam nos relatórios de produtividade ou nas estatísticas de rotatividade, elas tornam-se visíveis na saúde dos trabalhadores.

Quando um número crescente de profissionais, independentemente da sua qualificação, relata fadiga persistente, dificuldade em recuperar entre jornadas, perda de sentido, ansiedade ou dificuldades em equilibrar trabalho e vida pessoal, não se trata apenas de um problema clínico. É um sinal de que existe um desequilíbrio na forma como o trabalho está organizado e valorizado.

Esta reflexão não diminui a importância da valorização do salário mínimo. Pelo contrário, uma sociedade mais justa deve garantir que ninguém que trabalha viva na pobreza. Contudo, é igualmente crucial que a valorização do trabalho não se limite a esse objetivo.

Uma economia sustentável depende da inovação, produtividade e competitividade, mas também da capacidade de preservar a saúde física e mental de quem gera essa riqueza. Ignorar este aspecto significa aceitar que parte do crescimento económico é sustentado pelo desgaste silencioso dos trabalhadores.

Talvez seja o momento de adicionar uma nova questão ao debate económico: não apenas quanto custa o trabalho às empresas, mas quanto custa o atual modelo de organização do trabalho à saúde dos trabalhadores. Porque esse custo existe, embora continue a ser demasiado invisível.

Leia também: O impacto da saúde mental na produtividade laboral.

custo da produtividade custo da produtividade custo da produtividade custo da produtividade custo da produtividade Nota: análise relacionada com custo da produtividade.

Leia também  Unicre doa parte das transações DCC à Fundação do Gil

Leia também: Bolha da Inteligência Artificial Está a Caminho do Colapso?

Fonte: Sapo

Simular quanto pode poupar nos seus seguros!

Não percas as principais notícias e dicas de Poupança

Não enviamos spam! Leia a nossa política de privacidade para mais informações.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Back To Top