O recente “acordo” de paz promovido pela administração de Donald Trump tem gerado controvérsia, principalmente pela exclusão dos palestinianos do processo. Nos tempos de conflito em África, os casamentos por procuração eram comuns, mas o que se observa agora é um “casamento” sem a noiva, onde apenas Israel foi consultado. A falta de envolvimento dos palestinianos levanta questões sobre a legitimidade deste acordo de paz.
O documento, que foi alterado após um encontro entre Trump e o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, ignora as preocupações e opiniões dos líderes árabes. O parágrafo 19 menciona a autodeterminação palestiniana como um objetivo distante, dependente de reformas na Autoridade Palestiniana, apesar de ser um princípio reconhecido pelo direito internacional e apoiado por 157 países.
Israel tem violado repetidamente os termos do acordo de paz, dificultando a entrada de ajuda humanitária e atacando civis. A retórica de Telavive sugere que a continuação dos combates é necessária para proteger os civis, mas a realidade é que Israel não conseguiu alcançar os seus objetivos estratégicos de eliminar o Hamas e deslocar a população de Gaza. O acordo, que proíbe a expulsão de habitantes de Gaza, parece estar a ser ignorado.
O Hamas, por sua vez, não se rendeu e mantém a sua estrutura funcional. O líder do grupo, Izzat al-Rishq, afirmou que Israel não conseguirá alcançar os seus objetivos por meio de genocídio ou negociações. A guerra continua a ser uma prioridade para Netanyahu, que precisa de uma vitória clara para a sua sobrevivência política.
Os conflitos na região costumam terminar de forma ambígua, sem vitórias definitivas. O impasse é uma constante, e as intervenções dos EUA, que muitas vezes impõem soluções que favorecem Israel, não têm sido a resposta eficaz para a paz duradoura. O recente acordo de paz parece seguir essa mesma linha, com Trump a pressionar Netanyahu a libertar reféns, enquanto as hostilidades continuam.
A falta de clareza no acordo de paz levanta questões sobre o futuro da governança em Gaza. O desarmamento do Hamas e a imposição de um governo tecnocrático sob a supervisão de Tony Blair são pontos controversos. O Hamas está disposto a considerar o desarmamento, mas apenas se houver reconhecimento do Estado palestiniano, algo que ainda parece distante.
A Autoridade Palestiniana, embora marginalizada, está a preparar-se para um possível papel no governo de Gaza, mas o Hamas não permitirá que um organismo internacional assuma o controlo. A divisão entre as várias facções palestinianas complica ainda mais a situação.
O futuro do acordo de paz é incerto. Trump enviou representantes a Israel para garantir que o plano não será sabotado, mas a tensão entre os objetivos de Israel e as exigências do acordo é palpável. O reconhecimento do Estado palestiniano e a não ocupação de Gaza são condições que, se não forem cumpridas, podem levar ao colapso do acordo.
Como afirmou Mohammed al-Astal, o Hamas procura uma saída digna e pode estar disposto a negociar, mas a situação continua a ser volátil. O sucesso do acordo de paz depende da inclusão dos palestinianos no processo. Sem isso, a paz será difícil de alcançar.
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Fonte: Sapo





