O poder da rua é um conceito que continua a ser debatido na política portuguesa, mas a sua verdadeira influência é frequentemente exagerada. Embora as manifestações sejam vistas como uma representação do povo, na realidade, muitas vezes refletem apenas os interesses de grupos organizados que conseguem gerar pressão sobre o governo. Esta confusão entre barulho e legitimidade pode levar a decisões impulsivas que comprometem a estabilidade económica e institucional do país.
A economia ensina que a eficácia das políticas públicas depende de estabilidade e previsibilidade. A Teoria da Inconsistência Dinâmica, proposta por Kydland e Prescott, ilustra que a credibilidade das decisões governamentais deve assentar em compromissos sólidos e não em reações a pressões externas. Quando um governo altera reformas estruturais para agradar a manifestações, arrisca-se a perder a sua capacidade de ação futura. Os mercados não perdoam incertezas, e os investidores tendem a adiar projetos, o que prejudica o progresso do país.
Um exemplo recente ilustra bem esta dinâmica. O governo de centro-direita, que se apresenta como reformista, cedeu à pressão da UGT e restaurou três dias de férias relacionados com a assiduidade, além de recuar na simplificação dos despedimentos nas médias empresas. Esta cedência, feita na tentativa de evitar uma greve geral, acabou por não surtir efeito, pois a UGT manteve a greve. Assim, o governo pagou um preço elevado sem obter qualquer benefício em troca. O poder da rua, embora aparente, revelou-se insuficiente para impedir reformas essenciais.
A Economia Política ajuda a compreender como as manifestações não são expressões puras da vontade popular, mas sim ferramentas de grupos de interesse organizados. A Teoria da Ação Coletiva de Olson explica que grupos pequenos e organizados podem capturar políticas públicas em detrimento de maiorias dispersas. Este fenómeno é evidente quando sindicatos bloqueiam reformas que beneficiam a sociedade em geral, mas que favorecem apenas alguns.
Na prática, o poder da rua é frequentemente frágil e superficial. Por exemplo, as grandes manifestações da função pública antes da troika não impediram cortes salariais ou alterações nas carreiras. A rua pode gritar, mas a realidade política muitas vezes prevalece. Em 2012, uma das maiores manifestações contra a TSU resultou num recuo momentâneo do governo, mas não impediu as medidas de austeridade que se seguiram. Em França, os protestos dos “coletes amarelos” não impediram a reforma da idade da reforma, demonstrando que a pressão da rua não é sinónimo de sucesso político.
A razão pela qual o poder da rua parece forte é simples: ele prospera quando os governos mostram hesitação. Este poder é contingente e vive da incerteza política. Quando um governo cede a pressões, reforça a ideia de que bloquear e protestar traz recompensas, criando um ciclo vicioso de futuras mobilizações.
Os custos desta lógica são significativos: perda de credibilidade internacional, instabilidade regulatória, rigidez estrutural e erosão da autoridade do Estado. A democracia representativa foi criada para evitar que a política fosse dominada por emoções momentâneas. O Parlamento e o Governo devem deliberar e liderar, enquanto a rua não tem responsabilidade pelas suas exigências.
O poder da rua, na verdade, representa uma captura do Estado por aqueles que impõem custos sem assumir responsabilidades. Este fenómeno prejudica quem trabalha, investe e paga impostos. Quando um governo liberal se deixa capturar, transforma-se num mero administrador do medo, em vez de um agente de mudança.
As manifestações podem gerar emoção, mas não soluções. Um governo que cede ao poder da rua perde o seu rumo e, consequentemente, o país sofre, pois as reformas necessárias ficam bloqueadas. A rua deve ter voz, mas governar é resistir a este mito e reafirmar que o verdadeiro poder reside na coragem de decidir e reformar, sem receios.
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Fonte: ECO





