Recentemente, a União Europeia (UE) celebrou dois acordos comerciais significativos: um com o Mercosul e outro com a Índia. Embora a entrada em vigor do acordo com o Mercosul seja provisória e esteja a ser contestada juridicamente, Portugal vê estas iniciativas como oportunidades. No entanto, é fundamental não desconsiderar as ameaças que estes acordos comerciais podem trazer, especialmente para setores que enfrentam concorrência de países com custos de produção mais baixos.
As oportunidades são claras. Os acordos comerciais oferecem acesso preferencial a mercados vastos e em crescimento, permitindo uma maior diversificação geográfica das exportações e uma redução da dependência da UE, onde os principais mercados, como a Alemanha, França e Itália, estão estagnados. Estes objetivos são essenciais para a economia portuguesa, que procura novas formas de crescimento.
Para muitas empresas nacionais, incluindo aquelas que operam em setores como bens intermédios, componentes industriais, serviços empresariais, engenharia e tecnologias de informação, estes acordos podem facilitar a expansão e a mitigação de riscos num cenário internacional cada vez mais fragmentado. Contudo, as importações provenientes do Mercosul e da Índia também constituem uma ameaça para diversos setores em Portugal.
A agropecuária nacional, por exemplo, enfrenta uma concorrência direta do Brasil, que se beneficia de custos de produção mais baixos e de exigências regulatórias menos rigorosas. O setor têxtil e do vestuário, que ainda é relevante para o emprego e as exportações em Portugal, poderá sentir uma pressão crescente devido à oferta de produtos indianos a preços muito competitivos. Ignorar estes impactos seria um erro grave e socialmente irresponsável.
Neste contexto, a política económica assume um papel central. Os acordos comerciais não são intrinsecamente bons ou maus; o seu impacto depende da capacidade do país em elevar o seu perfil de especialização. Os setores tradicionais precisam de evoluir para nichos de maior valor, incorporando inovação e outros fatores imateriais de competitividade, como marcas e marketing, para competir com qualidade e valor percebido.
É igualmente crucial reforçar a presença da indústria e dos serviços avançados, que incorporam tecnologia e conhecimento. Quanto mais rapidamente esta transição ocorrer, maiores serão as probabilidades de Portugal beneficiar dos acordos comerciais a médio e longo prazo. Os fundos europeus deveriam ser direcionados para a competitividade e para projetos de elevado valor e produtividade, em vez de serem maioritariamente utilizados para sustentar o Estado, o que alimenta ineficiências e adia reformas necessárias.
Enquanto Portugal continuar a depender excessivamente de setores com mão-de-obra pouco qualificada e baixa incorporação tecnológica, como o turismo e parte da indústria tradicional, permanecerá vulnerável à concorrência externa. Melhorar o perfil de especialização requer investimento, qualificação, inovação, uma regulação mais eficaz e um Estado mais eficiente. Também é essencial uma estratégia clara para a reconversão dos setores mais expostos, evitando protecionismos que não trazem resultados.
Os acordos comerciais não substituem a necessidade de reformas internas; pelo contrário, tornam mais evidentes os custos de atrasar essas mudanças. No fundo, estes acordos colocam Portugal diante de um dilema antigo: adaptar-se ou perder terreno. Cada dia que passa sem reformas estruturais é um dia perdido no caminho para o progresso.
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Fonte: Sapo





