Repricing no mercado: impacto da IA nas avaliações financeiras

A semana passada ficará marcada na história financeira recente não pelos máximos dos índices, mas pelo intenso repricing setorial que revelou um novo abalo nas bases da economia global. Enquanto o debate público se centra na sustentabilidade das avaliações da Inteligência Artificial (IA), o mercado de capitais começou a descontar, de forma eficaz, os fluxos de caixa futuros de modelos de negócio inteiros.

Este ajustamento não foi aleatório; teve alvos bem definidos. A Adobe, por exemplo, viu-se pressionada devido ao receio de que a IA generativa possa tornar o seu software criativo obsoleto. Consultoras de diversas áreas também sofreram penalizações, uma vez que o futuro da produção de “inteligência” parece perder o seu valor. O efeito dominó estendeu-se a operadores logísticos e grandes corretores de seguros, cujas margens de intermediação agora são vistas como ineficiências a eliminar. A tese subjacente é clara: os Agentes de IA deixaram de ser uma mera abstração para se tornarem fatores deflacionários em indústrias que dependem intensivamente do capital humano.

Estamos a atravessar um período de incerteza em relação ao impacto real da IA, onde o mercado de capitais enfrenta uma colisão entre a racionalidade económica e a dissonância cognitiva dos investidores. O mercado tenta, simultaneamente, precificar dois cenários opostos, criando uma anomalia que o Bank of America (BofA) sintetizou através de duas perspetivas intrigantes: o paradoxo de Vivek Arya e o alerta de Michael Hartnett.

O “Paradoxo” identificado por Arya expõe a atual esquizofrenia na alocação de capital. Observa-se uma pressão vendedora em teses contraditórias: vende-se ações de investidores em infraestrutura (como datacenters) pelo receio de que o retorno sobre o capital investido em IA seja demasiado demorado, enquanto se vende software e serviços por medo de que a IA seja tão deflacionária que eroda o poder de fixação de preços. A lógica financeira indica que ambas as premissas não podem ser verdadeiras a longo prazo, mas a aversão ao risco de curto prazo frequentemente ignora a coerência fundamental.

Se Arya diagnostica a contradição, Hartnett identifica o gatilho da correção. A sua tese sugere uma transição do “AI-Awe” (o prémio pela inovação) para o “AI-Poor” (o desconto pela disrupção). Este fenómeno foi visível recentemente, com setores tradicionalmente defensivos, como o Business Process Outsourcing (BPO) e a consultoria, a sofrerem uma forte compressão dos seus múltiplos de mercado.

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O mercado está a ajustar-se à nova realidade dos Agentes de IA. Notícias sobre a substituição de funções de suporte por sistemas automatizados atuaram como catalisador. O setor de serviços tecnológicos em geografias de baixo custo, que historicamente foi o motor do outsourcing global, enfrenta agora um desafio estrutural. O modelo de negócio que se baseava na arbitragem laboral está a ser ameaçado pela “arbitragem de computação”, onde as tarefas humanas são transferidas para modelos de processamento com custos em queda exponencial.

Neste contexto, empresas cujo valor acrescentado reside na intermediação de serviços ou na venda de “horas-homem” para tarefas repetitivas correm o risco de se tornarem armadilhas de valor. Embora possam parecer descontadas, enfrentam a obsolescência da sua vantagem competitiva.

O epicentro da turbulência tecnológica está agora, sem dúvida, no software. A narrativa de que a IA irá derrubar as barreiras de propriedade intelectual provocou quedas significativas em relação ao restante mercado, com índices como o ETF de Tech-Software a registarem perdas superiores a 30%. É possível que este castigo seja exagerado a curto prazo, mas o risco sistémico é real: este dano no sentimento pode contagiar outras classes de ativos tecnológicos, desencadeando novas ondas de fraqueza em ações que até agora pareciam imunes.

Apesar do pânico, concluir que o setor de serviços e software está em declínio é um erro de visão. O mercado está a confundir a morte de um modelo de cobrança com a morte da proposta de valor. O desafio não é a irrelevância, mas sim a adaptação: o futuro destas empresas depende da sua capacidade de migrar do tradicional Software-as-a-Service (SaaS) para o emergente Service-as-a-Software.

A Índia e as empresas de BPO estão sob pressão, pois o modelo de “aluguer de capacidade humana” está a ser questionado. Contudo, para as empresas de software ocidentais que detêm dados críticos dos clientes, a narrativa é diferente. Estamos a passar da venda de ferramentas para a venda de resultados.

Analisando a evolução da economia unitária, a transição do paradigma SaaS para o modelo de Agentes Autónomos implica uma reconfiguração do pricing. Cobrar por hora ou por utilizador torna-se ineficiente quando a IA reduz o tempo de execução. As empresas que sobreviverão a esta rotação setorial serão aquelas que adotarem modelos de negócio baseados em resultados, capturando parte da eficiência gerada.

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No setor segurador ou na consultoria, o intermediário que apenas processa informação perde relevância. No entanto, a organização que utilizar Agentes de IA para analisar complexidade contratual rapidamente e fornecer estratégias personalizadas verá as suas margens expandirem-se, livres da ineficiência operacional.

O que observámos na última semana não foi o fim do ciclo da IA, mas sim o fim da complacência nas avaliações. O risco recai sobre os “intermediários de fricção”, aqueles cujo valor económico é meramente transacional. Um eventual corte no Capex pelos hyperscalers poderá provocar volatilidade, mas poderá também sinalizar a maturidade do ciclo: o fim da fase de construção de infraestrutura e o início da fase de aplicação.

Perante esta rotação iminente, o investidor é chamado a um exercício de introspeção estratégica. A questão central deixa de ser “qual o próximo chip mais rápido?” para ser “qual o modelo de negócio resiliente à deflação cognitiva?”. A sua carteira está alocada a empresas que vendem ferramentas ou a organizações que vendem resultados auditáveis?

Num mundo onde o custo de produzir inteligência tende para zero, o prémio de valor migra para a confiança, a integração e os dados proprietários. O desafio que se coloca é inquietante: estará o seu portfólio preparado para distinguir os futuros líderes da economia “Service-as-a-Software” ou estará, inadvertidamente, carregado de ativos cujo valor a IA se encarregará de dissipar?

Leia também: O impacto da IA nas empresas de tecnologia.

repricing repricing repricing repricing Nota: análise relacionada com repricing.

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Fonte: ECO

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