Na recente Conferência de Segurança de Munique, um momento inusitado destacou a fragilidade da ordem internacional. O chanceler alemão, Friedrich Merz, fez uma declaração ousada ao afirmar que a chamada “ordem internacional baseada em regras” deixou de existir, ou, se alguma vez existiu, foi apenas para um círculo restrito de beneficiários. Este desabafo não foi um incidente isolado, mas uma continuação do alerta feito por Mark Carney em Davos, onde reconheceu que a economia política global está a ser dominada por interesses nacionais e poder bruto, em detrimento das regras e instituições que antes eram respeitadas.
A honestidade na diplomacia é frequentemente vista como uma grosseria, e Merz não hesitou em expor uma verdade desconfortável. A ordem internacional, que deveria ser um pilar da estabilidade global, sempre funcionou como uma ficção conveniente. As regras eram moldadas e interpretadas pelas potências que se apresentavam como suas guardiãs. Quando estas regras beneficiavam o centro, eram invioláveis; quando não, tornavam-se flexíveis ou até descartáveis.
A história recente ilustra bem esta assimetria. Os Estados Unidos invadiram o Iraque com base em informações frágeis, mas a ordem internacional aceitou essa ação. Israel tem violado repetidamente princípios humanitários em Gaza, mas a resposta da ordem foi de relativização. A anexação da Crimeia pela Rússia foi tratada com uma rigidez que não se viu em outras situações. A captura ilegal de um líder estrangeiro pelos EUA, por exemplo, foi apoiada pela Europa, enquanto a indignação surgia quando Donald Trump ameaçou “tomar” a Groenlândia, um território europeu.
A administração Trump não criou essa desigualdade; apenas expôs a sua essência. O lema “America First” não quebrou a ordem baseada em regras, mas revelou o que ela sempre foi para os que estavam no centro. O unilateralismo sempre esteve presente, mas o que se perdeu foi o pudor.
A Europa, por sua vez, desempenhou um papel confortável como intérprete moral de uma ordem que nunca controlou plenamente. Beneficiou-se das normas quando estas eram convenientes, mas manteve-se em silêncio quando as violações eram cometidas pelos seus aliados estratégicos. Agora, a Europa percebe que nunca construiu uma verdadeira autonomia estratégica, sendo multilateralista apenas por delegação.
Para os países do Sul Global, o discurso de Merz não foi uma tragédia, mas uma confirmação da sua realidade. Estes países sempre estiveram à margem da ordem internacional, sujeitos a sanções seletivas e promessas não cumpridas. O que se segue não será necessariamente mais justo. A multipolaridade não é uma virtude em si mesma, mas a perda de credibilidade da ficção da ordem internacional é um sinal de mudança.
Em Munique, em fevereiro de 2026, alguém finalmente disse em voz alta o que muitos já sabiam em silêncio. A ordem baseada em regras não colapsou de repente; apodreceu lentamente, sustentada por décadas de hipocrisia. O desconforto não resultou da morte da ordem, mas do fim da ilusão que a sustentava.
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Fonte: Sapo





