O grupo dos BRICS, que reúne Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, tem vindo a ganhar destaque no cenário global, especialmente à medida que o Ocidente enfrenta um declínio da sua influência. Desde a sua criação, os BRICS têm trabalhado em conjunto para estabelecer novas regras de governação que reflitam as mudanças no sistema internacional, onde a voz dos países não ocidentais se torna cada vez mais relevante.
A crescente aceitação dos BRICS fora do mundo ocidental, bem como movimentos de aproximação, como o Fórum BRICS-Europa, indicam um despertar para uma nova realidade. O Ocidente, por sua vez, parece ignorar as mudanças na correlação de forças, levando os BRICS a endurecer posições e a organizar-se em torno de modelos alternativos de governação que defendem os interesses de uma maioria de países que os apoiam.
Um dos principais objetivos dos BRICS é a desdolarização, ou seja, a redução da dependência do dólar norte-americano. Em vez de seguir os métodos tradicionais, os BRICS estão a explorar formas de promover o comércio e o investimento entre os seus membros utilizando as suas próprias moedas, como o rublo, a rupia, o real e o yuan. Além disso, estão a desenvolver sistemas de pagamento alternativos, como o BRICS Pay, que visa facilitar transações transfronteiriças de forma mais eficiente e económica.
A presidência indiana dos BRICS em 2026 trará um foco renovado na interligação das moedas digitais dos países membros. A proposta do Banco da Reserva da Índia inclui a criação de um sistema de pagamentos que permitirá transações diretas e mais baratas, reduzindo a dependência do sistema financeiro ocidental. Este sistema não apenas oferece uma alternativa ao SWIFT, mas também se mostra resistente a sanções económicas, um ponto crucial considerando a crescente tensão entre os BRICS e o Ocidente.
Os desafios técnicos são significativos, e nem todos os países membros estão igualmente preparados para implementar estas novas técnicas de pagamento. No entanto, o entusiasmo em torno da proposta é palpável, com um forte empenhamento na sua implementação. As decisões tomadas na 16ª Cimeira dos BRICS em Kazan, na Rússia, poderão ter um impacto profundo no sistema monetário e económico internacional.
Se as previsões de especialistas como Jeffrey Sachs se concretizarem, a hegemonia do Ocidente poderá estar a chegar ao fim, colocando os BRICS numa posição de destaque na nova ordem mundial. A era pós-americana está a emergir, e a forma como os BRICS moldarão as relações internacionais será crucial para o futuro da governação global.
Ainda é cedo para determinar se este novo paradigma levará a um mundo dividido em blocos antagónicos ou a um entendimento mais amplo sobre as instituições da nova ordem financeira. Contudo, é essencial que haja uma inteligência estratégica, especialmente por parte do G7, para promover uma transição equilibrada e cooperativa, reduzindo assim as causas de conflitos latentes entre países. Leia também: O impacto da desdolarização na economia global.
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Fonte: Sapo





