A IFRS 17, que regula os contratos de seguro, é uma norma que promete transformar a forma como as seguradoras reportam e analisam os seus resultados. No entanto, após anos de implementação, o setor encontra-se numa fase de incerteza em vez de celebração. A expectativa de clareza e consenso, que se repetiu ao longo da última década, parece mais distante do que nunca.
Este artigo não visa criticar a IFRS 17, mas sim refletir sobre a sua aplicação no setor. O que se observa é um setor que, após uma maratona de adaptações, hesita à porta da meta. A norma tinha como objetivo revelar a verdadeira economia das seguradoras e facilitar comparações entre elas. Contudo, o resultado é um paradoxo: nunca houve tanta informação disponível e, ao mesmo tempo, nunca foi tão difícil compará-la.
Um exemplo claro é a forma como as seguradoras apresentam os resultados dos seus contratos. A IFRS 17 permite uma variedade de escolhas, e cada empresa utiliza essa liberdade para construir uma narrativa que se alinha com a sua realidade. Assim, o mercado enfrenta o desafio de montar um quebra-cabeças, onde cada peça pertence a uma caixa diferente.
A complexidade aumenta, enquanto o consenso parece evaporar-se. Esta situação não é um erro da norma, mas sim uma consequência da aplicação de princípios comuns a um setor que é, por natureza, heterogéneo. Há quem afirme que a convergência entre as práticas nunca será alcançada, mas essa é uma conclusão simplista. O que se vive atualmente é uma fase de adaptação, onde as seguradoras ainda estão a aprender a comunicar na linguagem da IFRS 17. Os analistas e auditores também estão a adaptar-se a esta nova realidade.
Se o consenso não surgir de forma natural, será necessário que haja pressão externa. Investidores, práticas de mercado e até regulação poderão forçar uma maior uniformidade. A comparabilidade não é apenas uma questão académica; é fundamental para o custo de capital das empresas. Ignorar esta realidade pode ser perigoso.
O verdadeiro desafio não reside na IFRS 17, mas sim na disposição do setor em utilizá-la como uma ferramenta de gestão, em vez de a tratar como um mero exercício contabilístico. Muitas organizações ainda veem a norma como um ritual burocrático, produzindo relatórios que não influenciam as decisões estratégicas. É como ter um telescópio e deixá-lo na caixa.
Esta abordagem é lamentável, pois a IFRS 17 oferece um modelo económico claro para o negócio segurador. Ela expõe a criação de valor ao longo do tempo e exige decisões conscientes sobre risco, margem e duração. Ignorar este potencial é desperdiçar um dos maiores investimentos em transformação do setor.
Os investidores não procuram apenas métricas semelhantes; eles desejam narrativas coerentes e previsíveis. A IFRS 17 pode proporcionar isso, mas apenas se as seguradoras tiverem a coragem de a utilizar como uma linguagem estratégica. Se a clareza e o consenso ainda não foram alcançados, isso não deve ser visto como um fracasso, mas sim como um convite à liderança do setor.
É necessário um foco maior no que a norma revela sobre risco, valor e tempo. A integração entre contabilidade, risco, capital, estratégia e narrativa financeira é essencial. O valor da IFRS 17 não está na busca pela métrica perfeita, mas na maturidade das empresas que a utilizam. A IFRS 17 não é um espelho automático, mas uma lente que cada seguradora decide se usa para ver melhor ou para continuar a ver o que sempre viu.
A IFRS 17 representa uma oportunidade única de mudança para o setor segurador nas últimas décadas, mas muitos ainda se preocupam mais em conviver com a norma do que em aproveitá-la como uma vantagem competitiva.
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Fonte: ECO





