Portugal, como parte da União Europeia, está na linha da frente das alterações climáticas, enfrentando desafios que exigem uma resposta urgente. A Europa tem investido significativamente em ciência climática, desenvolvendo uma capacidade operacional avançada para monitorizar e prever eventos climáticos. Através de satélites e redes de observação, a UE tem sido capaz de integrar dados científicos em serviços públicos que ajudam na gestão de desastres naturais, na agricultura e no planeamento a longo prazo.
No entanto, existe um paradoxo: apesar da liderança europeia na observação e modelação climática e da redução das emissões de gases com efeito de estufa, as concentrações globais continuam a aumentar. Portugal, assim como o resto da Europa, está a aquecer mais rapidamente do que a média global, e os impactos físicos das alterações climáticas estão a ser sentidos com maior intensidade. O conhecimento sobre as alterações climáticas avança, mas a transformação necessária para mitigar os seus efeitos parece estar aquém do desejado.
Enquanto isso, a situação nos Estados Unidos contrasta com a da Europa. Os esforços para desmantelar a regulação climática nos EUA demonstram como a negação das alterações climáticas está a ganhar força. A tentativa de revogar a “Declaração de Perigo” da Agência de Proteção Ambiental dos EUA, que reconhece os gases com efeito de estufa como uma ameaça à saúde pública, é um exemplo claro de como interesses políticos podem sobrepor-se à ciência. A Europa, embora não siga este caminho, enfrenta pressões semelhantes para enfraquecer a regulação ambiental em nome da competitividade.
A mitigação e a adaptação às alterações climáticas são essenciais. Mitigar significa reduzir as emissões de gases com efeito de estufa, enquanto adaptar implica ajustar infraestruturas e sistemas sociais às mudanças inevitáveis. O desafio está na escala e rapidez da implementação dessas medidas, bem como no compromisso político necessário. Infelizmente, os investimentos em ambas as áreas são insuficientes face à magnitude do risco que enfrentamos.
Nos últimos três anos, Portugal e a Europa têm assistido a um aumento alarmante das temperaturas, com recordes mensais a serem batidos. As consequências são visíveis: ondas de calor prolongadas, alterações nos padrões de chuva, incêndios florestais e riscos de cheias. As alterações climáticas não afetam a todos de forma igual; as populações mais vulneráveis são as que mais sofrem. A capacidade de recuperação de desastres naturais depende de fatores como rendimento, qualidade da habitação e acesso a serviços, o que torna a adaptação uma questão de justiça social.
Além disso, a sociedade tende a subestimar as ameaças que evoluem lentamente. As alterações climáticas desafiam essa mentalidade, pois a resposta a emergências pode tornar-se uma rotina, ignorando a necessidade de prevenção. O Pacto Ecológico Europeu surge como uma resposta estratégica a esta crise, propondo uma visão que liga a mitigação, a adaptação e a transformação industrial. A implementação deste pacto é crucial para garantir a segurança energética e a resiliência económica a longo prazo.
As recentes inundações em Portugal não são um evento isolado, mas parte de um padrão crescente que não pode ser ignorado. Temos à disposição as ferramentas científicas para monitorizar as alterações climáticas e os dados para compreender os seus efeitos. A questão que se coloca agora é se as decisões políticas irão refletir a gravidade do desafio. As alterações climáticas não são uma questão distante; estão a moldar as condições em que vivemos e trabalhamos. A inação tem um custo, que já está a ser sentido em várias comunidades, como as de Leiria e Coimbra.
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Fonte: Sapo





