O conceito de estagflação, que muitos pensavam ter ficado para trás nos anos 70, está novamente em discussão à medida que a economia europeia e mundial enfrenta novos desafios. A combinação de preços elevados da energia, inflação crescente e uma desaceleração da confiança dos consumidores está a criar um cenário preocupante. A situação é agravada por disrupções nas cadeias de abastecimento e condições financeiras mais restritivas, o que torna o caminho para a recuperação mais difícil do que se esperava.
A escalada do conflito no Médio Oriente, especialmente a guerra no Irão e os ataques a infraestruturas energéticas no Golfo, traz à tona o fantasma da estagflação. O comissário europeu da Economia, Valdis Dombrovskis, já alertou para o risco de a economia global entrar numa fase de estagflação, enfatizando que tudo dependerá da duração do conflito e das suas repercussões. Os preços do gás natural e do petróleo dispararam, com aumentos superiores a 60% e 50%, respetivamente, o que pode ter um impacto significativo na economia europeia.
A estagflação, que combina inflação e estagnação económica, é um fenómeno que remete para o choque do petróleo de 1973, quando o racionamento de combustíveis levou a um aumento dos custos de produção e a uma desaceleração da atividade económica. Este cenário é novamente uma preocupação, com economistas como Paul Krugman a alertarem para o aumento do risco de estagflação, mesmo após a Reserva Federal dos EUA ter descartado essa possibilidade.
Para Portugal, um choque energético prolongado pode reduzir o crescimento projetado de 2,3% para 2026 e trazer de volta o défice. A incerteza permanece, uma vez que, apesar de uma pausa nas hostilidades, não se prevê uma rápida normalização no Estreito de Ormuz, o que poderia acalmar os mercados de petróleo.
Os governos europeus estão a mobilizar enormes quantias de dinheiro para apoiar famílias e empresas, mas é crucial evitar os erros do passado, como o aumento excessivo da despesa pública. A inflação persistente, resultado da pandemia, continua a ser um desafio central para a estabilidade económica. A possibilidade de que os bancos centrais repitam os erros de política monetária da pandemia, aumentando as taxas de juro em momentos inoportunos, é uma preocupação crescente.
Os choques energéticos e os conflitos geopolíticos podem alterar rapidamente o panorama macroeconómico. Embora a estagflação não seja inevitável, é um pesadelo que os bancos centrais não podem ignorar. O que acontece no Médio Oriente frequentemente tem repercussões globais. Será que estamos a assistir ao regresso do “Pior dos Dois Mundos” à Europa?
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Fonte: Sapo





